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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

TRATADO DO PURGATÓRIO

 

ORVALHO DO AMANHÃ: Santa Catarina de Gênova Religiosa
Santa Catarina de Gênova (1447-1510)

Tradução: Pe. José Artulino Besen

De como Santa Catarina, por comparação com o fogo divino que sentia em si, compreendia como era o Purgatório, e o modo como as almas estão felizes e atormentadas.

1 – Esta alma santa, ainda na carne,
estando no Purgatório do fogo do Amor divino,
que a queimava e purificava
aquilo que devia ser purificado, para,
terminando esta vida,
pudesse apresentar-se diante da face
de Deus, seu doce Amor,
através desse amoroso fogo,
em sua alma compreendia como estavam
as almas dos fiéis no lugar do Purgatório,
para purgar toda ferrugem e mancha de pecado,
ainda não purgado por eles nessa vida.

E assim, posta no Purgatório amoroso do divino fogo a ele estava unida pelo divino Amor,
e feliz por tudo aquilo que nela ele realizava,
assim compreendia as almas que estão no Purgatório. E dizia:

2 – As almas que estão no Purgatório
(conforme me é dado compreender)
outro lugar que esse não podem escolher;
e isso é por ordenamento de Deus,
que justamente assim determinou.
Não podem voltar-se para si, nem dizer:
Eu fiz tais pecados pelos quais mereço estar aqui.
Nem podem dizer: Eu não quis tê-los cometido,
porque agora vou para o Paraíso.
Nem dizer: Aquele não sairá antes de mim;
ou então: Antes dele eu sairei.
Não possui nenhuma memória de si,
nem tampouco dos outros, no bem ou no mal,
que neles provoque mais sofrimento do que o ordinário.
Mas possuem uma grande alegria
de seguirem as ordens de Deus,
e que ele faça tudo aquele o que lhe agrada,
e como lhe agrada, pois não podem de si pensar com maior sofrimento.
Apenas contemplam a realização da divina bondade, que é tão misericordioso com o homem para trazê-lo a si, que o castigo ou o bem que podem com justiça advir, por elas nada se pode ver; e, se pudessem vê-lo, não mais estariam na caridade pura.
Nada podem ver do que julgar justas por seus pecados as penas, e essa visão não podem ter na mente; pois isso seria uma imperfeição ativa,
que nesse lugar não pode existir,
pois já não podem mais pecar.
O motivo do Purgatório que possuem,
uma só vez o contemplam ao passar desta vida:
e nunca mais o poderão contemplar;
pois desse modo já seria uma propriedade.

3- Estando, por isso, essas almas em caridade
e dela não mais podendo sair com defeito atual,
não podem mais querer nem desejar
a não ser o puro querer da pura caridade;
e estando naquele fogo purgatório
estão na ordenação divina.
Ela é pura caridade; em por qualquer coisa delas não podem se desviar, porque agora estão privadas tanto da capacidade de pecar
como também de atualmente merecer.

4- Não creio que se comparar uma alma do Purgatório, senão com os Santos do Paraíso.
E essa alegria cresce a cada dia,
pela ação de Deus nessas almas;
que vai crescendo tanto quanto consome
o impedimento da ação.
A ferrugem do pecado é o impedimento;
e o fogo vai consumindo a ferrugem:
e assim a alma sempre mais se abre ao divino influxo.
De igual modo que algo coberto
não pode responder à reverberação do sol,
não por defeito do sol, que sempre brilha,
mas pelo impedimento da cobertura;
consumindo-se a cobertura
ele se descobrirá ao sol.
E tanto mais corresponderá à reverberação,
quanto mais a cobertura for consumida.
A ferrugem (o pecado) é a cobertura das almas;
e no Purgatório vai se consumindo pelo fogo;
e mais e mais se consome,
tanto mais se abrirá a Deus, sol verdadeiro.
Mais cresce a alegria, mais faltando a ferrugem,
e a alma se expõe ao divino raio.


https://pebesen.wordpress.com/filocalia-2/tesouros-da-fe-crista/mistica-medieval/16-tratado-do-purgatorio/ 

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 8 (final)

Tratado do Purgatório

Sofrimento espontâneo e alegre das almas purgantes.

Eu vejo que aquelas almas que estão no purgatório, estão em vista de duas operações distintas. A primeira é que padecem voluntariamente aquelas penas, parecendo-lhes ver que Deus teve para com elas grande misericórdia, pois assim é em consideração daquelas outras que mereceram, conhecendo a importância do pecado aos olhos de Deus. Porque se a sua bondade não temperasse a justiça com a misericórdia (satisfazendo-a com o precioso Sangue de Jesus Cristo), um só pecado mereceria mil infernos perpétuos.

Por isso essas almas padecem aquela pena tão voluntariamente que não queriam livrar-se dela nem em um momento, sabendo que é justíssimamente merecida, e bem ordenada que está, porque sua vontade se refere, não se queixam de Deus, sentindo-se como se estivesse na vida eterna.

A outra operação que eu dizia é aquele contentamento que sentem vendo a perfeita ordenação de Deus que com tanto amor e misericórdia opera com as almas.

Estes dois pontos de vista em um só instante os imprime Deus naquelas mentes, que como estão em graça, a entendem e compreendem assim, cada uma segundo a sua capacidade. E isto é que lhes dá tanto contentamento e alegria; o qual nunca lhes falta, mas vai crescendo cada vez mais conforme se vão aproximando de Deus.

Mas as almas não veem tudo isto em si mesmas, nem por si próprias, senão em Deus, no qual estão muito mais inteiradas ou adentradas que naquelas penas que padecem; pois deste entendimento divino fazem sua preferência com poder comparar com nada. Já que por pouca vista que se chegue a gozo que o homem nem sequer pode compreender; sem que isto queira dizer que este excesso reste na alma nenhuma centelha do gozo ou da pena.


A santa conclui a sua doutrina sobre as almas do purgatório, fazendo-lhes aplicação do que ela experimenta em sua alma.

Esta forma purgativa que eu vejo nas almas do purgatório, a sinto também em mim mesma, em meu entendimento; sobretudo, a contar desde uns dois anos. E cada dia que passa o sinto e vejo com maior claridade.

Vejo que a minha alma está em meu corpo como no purgatório, tão conforme e semelhante ao verdadeiro purgatório como pode ser na medida em que o corpo podia suportar sem morrer, padecer, que pouco a pouco, vira a chegar até a mote.

Vejo o meu espírito afastar-se de todas as coisas, inclusive aquelas espirituais com as que pudesse nutrir-se e reconfortar-se melhor: como lhe sucederia com a alegria, com a deleitação ou consolação, vejo, não obstante, que vai perdendo de tal modo o gosto de todas as coisas, sejam temporais ou espirituais, e que o sejam pela vontade, pelo entendimento ou a memória, que não posso dizer sequer que me contente de uma coisa mais que de outra.

Encontra-se assim meu ânimo interiormente tão assediado que, de todas aquelas coisas que refrigeram a vida espiritual ou corporal, se sente pouco a pouco e completamente vazio. Mas depois que as perdeu é quando conhece que eram coisas com as que pude aparentar-se e confortar-se, e, contudo, sucede que, ao mesmo tempo em que aborrece tanto que as deixa perder sem nenhum reparo.

E isto é assim porque o espírito tem aquele instinto de elevar-se sobre toda coisa impeditiva de sua perfeição, e com tanta crueldade manifesta, que quase chegaria a jogar-se no inferno para atingir seu desejo. E, por isso vai cortando de si todas aquelas coisas de que o homem interior se apacenta e conforma; e o assedia tão sutilmente com isto que não pode deixar passar sequer um mínimo de imperfeição que não seja ao ponto de aborrecê-la.

Enquanto se refere ao exterior, como o espírito não lhe corresponde nem sustenta, se acha o corpo todavia mais assediado, pois não encontra coisa sobre a terra que possa confortar-lhe em seu instinto humano.

Não lhe fica mais consolo que Deus, o qual, se opera tudo isto com tanto amor e com tão grande misericórdia, o faz para a satisfação de sua justiça.

O considerar tudo isto dá a alma grande paz e contentamento, sem que isto diminua por isso a pena nem o assédio; ainda que tampouco lhe possa aumentar tanto a pena como para que chegasse a alma a querer sair daquela ordenação divina.

Não sai a alma dessa prisão, nem tampouco o quer, nem tenta, tal que espera nela e que Deus faz todo aquilo que seja necessário. Mas contentamento está em que Deus esteja satisfeito e não caberia maior pena para mim que a de sair da ordenação divina, que vejo tão justa e plena de misericórdia.

Todas essas coisas que digo, as vejo e as toco; mas não posso encontrar palavras suficientes para expressá-las; para dizer com elas tudo o que quero.

Mas o que disse é o que sinto que há dentro de mim espiritualmente; e por isso o digo.

A prisão que parece que me encontro é o mundo, ao que o corpo me acorrenta. E a alma iluminada pela graça, é a que ao reconhecer a importância de encontrar-se assim retida ou atrasada por este impedimento para conseguir seu fim próprio em Deus, sofre com isso tanta pena, que sofre assim por causa, de sua própria delicadeza.

É que a alma também recebe de Deus, por graça, certa dignidade que a faz semelhante a Deus; pois assim é como Deus a faz consigo uma mesma coisa: por participação de sua bondade. E como é impossível que a Deus lhe suceda alguma pena, assim lhe sucede às almas quando a Ele se aproximam; e quanto mais se aproxima, tanto mais recebem e participam desta propriedade divina.

Por isso o retardamento em que se encontra causa a alma tão intolerável pena; porque a pena e o atraso a separam daquela propriedade que ela tem; que é a de sua própria natureza e que pela graça lhe é mostrada: pois o não poder alcançar a Deus sentindo-se capaz para Ele, lhe dá esta pena, que é tão grande como é sua estima mesma de Deus, já que esta estima é tanto maior quanto mais o conhece, e tanto mais consegue conhecê-lo quanto mais se acha sem pecado; pois o entendimento resulta, e então, mais terrível, ao recolher-se a alma em Deus que sem impedimento algum de erro conhece.

Do mesmo modo que o homem que prefere morrer do que ofender a Deus sente a morte e lhe causa sofrimento, mas a luz de Deus o incendeia de modo que chega a estimar mais aquela hora divina que a sua morte corporal, assim a alma, ao conhecer a ordenação divina, estima mais aquela ordenação que todos os tormentos interiores ou exteriores por terríveis que possam ser-lhe: e isto simplesmente porque Deus, que é o que faz tudo isso, excede a tudo o que se possa sentir ou imaginar.

E acontece que como Deus, por pouco que dê à alma, a ocupa tão por inteiro de si que já de outra coisa não pode preocupar-se sequer, com isto a alma perde toda outra propriedade sua, e já não vê nem fala, nem conhece dano nem pena que possam ser-lhes próprios. Pois tudo isto como foi dito, a alma o compreende no último momento, em um só instante, ao deixar esta vida.

Finalmente, e por conclusão, entendemos que Deus o faz perder ao homem tudo aquilo que só era seu pelo pecado e que o purgatório o purifica.

Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 7


Tratado do Purgatório


As almas purgantes não podem merecer. De como está disposta a sua vontade a respeito das obras que se oferecem neste mundo para seu sufrágio. Se as almas do purgatório pudessem purgar-se por contrição, em um só instante pagariam toda a sua dívida; porque um fogoso ímpeto de contrição as arrebataria por inteiro. E sucederia isto assim, por aquele claro entendimento que têm, então, as almas da importância do que lhes impede e estorva, não deixando-as alcançar seu fim e o amor de Deus. Mas podeis estar certos que do pagamento que têm de dar aquelas almas, nem o mais mínimo se perdoa; porque assim foi estabelecido pela Justiça Divina. E isto, enquanto se refere a Deus; pois, pelo que se refere às almas , estas já não têm afeição própria e não podem ver outra coisa senão o que Deus quer; nem de outro modo podem querer, senão como foi assim estabelecido. E se alguma esmola se faz por elas neste mundo que diminua o tempo de sua pena, elas não podem voltar-se com afeto para olhá-la se não é tanto que aquela justíssima balança da vontade divina se pague com ele como a sua infinita vontade se faça: pois em tudo isto não podem fazer outra coisa que deixar a Deus fazer o que Ele queira. Porque se pudessem as almas voltar-se a olhar para aquelas esmolas que se lhes fazem, saindo-se desta divina vontade, seria este ato próprio seu, que as apartaria imediatamente da vista divina, o qual seria para elas tanto quanto um inferno. Por isso estão essas almas aquietadas, imóveis, entregues a tudo o que Deus lhe dá, tanto de prazer e contentamento como de pena, pois nunca mais podem voltar-se para si mesmas, já que de tal modo estão transformadas intimamente na vontade de Deus que só se contentam em todo com aquela ordenação santíssima sua. As almas querem a sua perfeita purificação. Se alguma alma pudesse apresentar-se à visão de Deus conservando nela, porém, algo, por muito pouco que fosse, de impureza que não houvesse purificado, se sentiria terrivelmente injuriada com isto, padecendo, então, por isso uma paixão e pena muito maior que a de dez purgatórios juntos. Porque aquela pura bondade e suma justiça não poderia suportá-la em sua presença, o que é inconsciência impossível por parte de Deus. Pois aquela alma que visse que Deus não está plenamente satisfeito com ela, porém, ainda que a faltasse um só abrir e fechar de olhos de purificação, lhe seria isto tão intolerável que para arrancar-se de si aquela miséria, se lançaria de boa vontade em mil infernos, se pudesse, antes que sentir-se diante da presença divina não purificada de tudo. Exortações e reprimendas aos vivos. E assim, alma bem-aventurada, vendo a essa luz divina todas essas coisas aqui ditas, digo: Tenho vontade de gritar, me dá vontade de lançar um grito tão forte que assuste com ele todos os homens que andam sobre a terra para dizer-lhes: Oh! Miseráveis! Porque os deixais levar por este mundo, desprezando aquela importante necessidade em que os encontrareis ao ponto de chegar a hora da morte sem que haja tomado para isto previsão alguma? Todos estais sob a esperança da misericórdia de Deus, a qual dizeis que é tão grandíssima; mas não vês que, precisamente por sê-lo tanto, por ser tanta bondade de Deus, se levantará contra vós no juízo, já que haveis vivido contra a vontade de um Senhor tão bom? Pois por esta bondade é porque deverias obrigar-te a cumprir totalmente a Sua vontade, não abandonando, pelo contrário, a esperança enquanto fazes o mal: porque sua justiça não pode faltar-nos tampouco, sendo necessário que de algum modo se satisfaça plenamente. Não te confies mais dizendo: eu me confessarei e obterei logo a indulgência plenária; e estarei, então, purificado de todos os meus pecados e assim poderei salvar-me. Pensa que aquela confissão e contrição que dizes, a qual é necessária para ganhar uma indulgência plenária, é coisa tão difícil de obter que se soubesse estremeceria de medo; pois estaria muito mais seguro de não tê-la que de podê-la conseguir. 

Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 6


Tratado do Purgatório


Ardente desejo que têm as almas de transformar-se em Deus e sabedoria de Deus ao ocultar-lhe suas imperfeições A alma foi criada com todas aquelas condições de bondade que lhe capacitam para alcançar a perfeição, vivendo é claro, como Deus teria ordenado, sem contaminar-se de mancha de pecado algum. Mas, ao contaminar-se pelo pecado original, perdeu a alma seus dons e suas graças, e ficando morta, não pode, então, ressuscitar senão com a vontade de Deus. E quando foi ressuscitada pelo Batismo, fica, porém, aquela má inclinação primeira que a empurra e conduz (se ela não lhe faz resistência) ao pecado atual, pelo qual se morre de novo. Deus, porém, volta, todavia, a ressuscitá-la por meio de outra graça especial, porque a alma ficou tão entorpecida que para para voltá-la de novo a seu primeiro estado, tal como foi criada por Deus, sem as quais nunca poderia retornar. Quando a alma se encontra em caminho de volta a aquele seu primeiro estado, tanto é o ardor que sente por dever-se transformar em Deus, que este é, então, seu purgatório. E não porque ela possa ver o purgatório como tal purgatório, senão porque aquele instinto de subir para Deus sentindo-se impedida para ele, é o que se lhe faz, deste modo, o purgatório. Mas é este último ato de amor que se opera, então, sem o homem: porque se encontra na alma tantas imperfeições ocultas, que se as visse, viveria a alma desesperada; e assim, neste último estado, se vão consumindo todas elas misteriosamente. Somente quando foram todas consumidas, Deus o mostra à alma; para que ela veja aquela operação divina que lhe causou o fogo de amor consumindo todas as imperfeições que havia sido consumida nela. Alegria e dor das almas purgantes Deveis saber que todo aquele que julga o homem de si mesmo como perfeição, diante de Deus é defeito. por isso todo aquele que faz do homem uma aparência de perfeição, tanto no que vê, como no que sente, ou no que entende, ou no que quer, e até no que recorda, se não reconhece que é de Deus e não todo seu, com todo ele se contamina e entorpece. Porque devendo ser todas aquelas obras perfeitas, é necessário que para sê-lo se operem em nós e sem nós, ou seja, sem nós como agentes principais delas; assim, deste modo, é necessário que a obra de Deus se faça por Deus sem que o homem a faça primeiro. Estas são aquelas obras que Deus faz na última atuação do amor puro e nítido; porque as faz por si só sem mérito nenhum nosso. E essas obras são tão penetrantes e inflamam tanto a alma, que o corpo, que está ao redor, parece consumir-se de tal modo como se estivesse dentro de um grande fogo: porque este fogo não lhe abandonará, então, jamais até a morte. É verdade que o amor de Deus assim refletido na alma (segundo o vejo) dá a alma um tão grande contentamento que não se pode sequer expressar; mas esta alegria das almas que estão no purgatório não lhes diminui nem uma centelha sequer da pena. Porque é aquele mesmo impedimento do amor o que lhe faz maior a sua pena; e tanto esta pena se vai aumentando nelas, conforme é maior a perfeição de amor de que Deus faz capaz. E assim, as almas do purgatório têm tão grande alegria como grandíssima pena, que uma coisa não impede a outra. 


Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 5


Purgatório


O amor de Deus que atrai a si as almas santas e o impedimento que essas encontram no pecado, gera a pena do purgatório. Considero que há tão grande conformidade entre Deus e a alma, que quando a alma vê Deus naquela pureza em que a criara, a atrai de certo modo a si com tão ardente amor que bastaria para aniquilá-la se não fosse imortal. E faz a alma estar transformada tanto em seu Deus, que já não vê ser outra coisa senão Deus; o qual continuamente a vai atraindo e incendiando, não abandonando-a jamais, até havê-la conduzido a aquele ser seu de onde saiu; isto é aquela pura nitidez em que foi criada. Quando a alma, vendo-se a si mesma interiormente, se sente assim atraída com tão amoroso fogo para Deus, então por aquele calor mesmo do amor ardente a seu doce Senhor e Deus, que percebe em seu entendimento, toda ela se sente como se liquidar e fundir. E vendo depois a luz divina; e vendo nela como Deus não cessa nunca de atraí-la e conduzi-la amorosamente à inteireza de sua perfeição, com tanta e tão contínua previsão e cuidado; e que isto só por puro amor o faz; e vendo-se a alma pelo impedimento do pecado entorpecida para seguir aquela atração de Deus, aquela meta unitiva que Deus lhe oferece para atraí-la a si; e vendo também quanto lhe significa o estar, todavia, tão atrasada que não pode ver a luz divina, mostrando a ele aquele outro instinto da alma que quisera ser livre e sem impedimento algum para seguir aquela busca unitiva de Deus: digo, que o ver todas essas coisas juntas é o que gera nas almas a pena que sofrem no purgatório. E não é só isto a dizer que sinta sobre toda aquela pena que padecem por isso (ainda sendo, como é, grandíssima), porque o que sentem mais todavia é a oposição em que ainda se encontram contra a vontade de Deus, a qual veem já tão claramente inflamado de um forte e puro amor para elas. E este amor, com aquela meta unitiva que disse, age de maneira tão forte e tão contínua nas almas que parece como se não tivesse que fazer outra coisa mais que isso. Por isso a alma, vendo isto, se encontrasse outro purgatório mais terrível para poder arrancar de si de maneira mais rápida esse impedimento, em seguida se atiraria nele, movida pelo ímpeto daquele amor tão consequente entre Deus e a alma. Como Deus purifica as almas. Exemplo do ouro no crisol. Vejo também que procede daquele amor divino em direção a alma certos raios e centelhas de fogo tão penetrantes e tão fortes que parece que deviam aniquilar não somente o corpo, mas a alma mesma, se isto fosse possível. Estes raios têm dois efeitos: um, o de purificar; o outro, o de aniquilar ou consumir. Veja o ouro: quanto mais o fundes melhor se torna; e tanto se poderia fundir que se aniquilaria nele toda a impureza. Este efeito tem o fogo em todas as coisas naturais; mas a alma, como não se pode aniquilar e consumir em Deus, se aniquila e consome em si mesma; e quanto mais se purifica, tanto mais em si mesma se consome e aniquila para unir-se a Deus totalmente purificada. O ouro, quando se purifica até vinte e quatro quilates, não se consome mais, por mais fogo que se ponha nele, porque não pode consumir-se senão o que nele é imperfeição ou escória. Assim também faz o fogo divino com a alma. Deus mantém o fogo até que se consuma nela toda imperfeição e a conduza à perfeição dos vinte e quatro quilates (a cada alma, naturalmente, segundo o seu grau). E quando a alma já está purificada deste modo, fica toda ela em Deus sem conservar nenhuma coisa em si que seja propriamente sua. Seu ser é Deus. Por isto, quando Deus está conduzindo a alma a si, purificada desse modo, fica a alma, então, impassível, porque não fica nada nela a ser consumido. Pois, se purificada como está, se mantivesse no fogo, este fogo não lhe causaria pena alguma; antes, bem lhe seria um fogo de amor divino, durável como de vida eterna, sem dano algum nem alguma contrariedade.

Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 4


Purgatório


O inferno e o purgatório nos revelam a admirável Sabedoria de Deus. Assim como o espírito limpo e purificado não encontra lugar a não ser em Deus para o seu repouso, por haver sido criado para esse fim, assim a alma em pecado não encontra outro lugar adequado para ela que não seja o inferno, que para este foi ordenado por Deus. Por isso, naquele mesmo instante em que o espírito se separa do corpo, a alma vai só ao lugar, que lhe foi ordenado, sem que ninguém a guie, exceto aquela alma que conserve a natureza do pecado porque saiu do corpo em estado mortal. Mas se a alma condenada não encontrasse no momento da morte aquela ordenação procedente da justiça de Deus, cairia em um inferno muito pior que aquele em que caiu, porque estaria fora daquela ordenação divina, a qual participa da divina misericórdia, que não lhe dá tanta pena quanto merece. Por isso, não encontrando a alma lugar mais conveniente para ela, nem em outro que se encontra com menos dano que aquele que por ordenação divina se lhe oferece, se lança dentro, como encontrando nele seu lugar próprio. Assim também, em relação ao purgatório, diremos que a alma, separada do corpo, ao não se encontrar com aquela pureza e nitidez com que foi criada e vendo em si o impedimento da culpa, que só pode ser quitada por meio do purgatório, rapidamente se lança nele de boa vontade. Porque, se a alma não encontrasse aquela ordenação prévia para tirá-la de seu embaraço, naquele mesmo momento se geraria para ela um inferno pior que o purgatório: ao ver que não podia alcançar, pelo impedimento da culpa, seu fim divino; o qual importa tanto, que, em sua comparação, o purgatório não vale nada, ainda que, como foi dito, seja tão semelhante ao inferno; mas em comparação com ele é quase nada. Necessidade do purgatório. Mas ainda quero dizer-lhes: é o que vejo, que pelo que se refere a Deus, o purgatório n]ao tem nem sequer portas: tal que o que quer nele entrar, entra; porque Deus é todo misericórdia e tem sempre para nós os braços abertos para receber-nos em sua glória. Mas também vejo que aquela essência divina é de tanta pureza e nitidez (e muito mais que se possa imaginar) que a uma mínima falta, se lançaria voluntariamente em mil infernos antes de poder encontrar-se na presença da Majestade Divina com aquela mancha. E por isso a alma, vivendo o purgatório ordenado para purificar-lhe daquelas manchas, se lança dentro; e lhe parece encontrar nele uma grande misericórdia, pois vai poder tirar de si aquele impedimento. Natureza terrível do purgatório. A importância do purgatório não pode expressar a língua nem conceber a mente; pois ao mesmo tempo que se vê nele tanta pena como no inferno, se vê também que a alma, quando somente sente em si um mínimo traço de imperfeição, o recebe como misericórdia, como foi dito: não fazendo estimação do seu dano em comparação com aquela mancha impeditiva de seu amor. E parece-me ver que a pena das almas do purgatório é maior, por ter visto nela mesma alguma coisa desagradável a Deus e por haver visto que esta coisa a fizeram voluntariamente contra tanta bondade; pois nenhuma outra pena pena sentem tanto como esta no purgatório. E é assim, porque estando em graça, veem a verdade e a importância do impedimento que não a deixam aproximar-se de Deus. Todas essas coisas que digo são incomparáveis com aquilo outro que está gravado em meu pensamento (quanto foi podido compreender nesta vida); e são coisas tão difíceis estas, que a seu lado, toda outra visão ou palavra, ou sentimento ou imaginação, toda outra justiça, toda outra verdade, me parecem mentira e coisa de nada. E ainda estou confusa por não saber encontrar palavras mais claras para dizê-los. 


Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 3


Purgatório


Deus mostra sua bondade até com os próprios condenados. A pena dos condenados não é, contudo, infinita em quantidade, porque a doce bondade de Deus resplandece com o raio de sua misericórdia ainda até no inferno. O homem morto em pecado mortal merece uma pena infinita em um tempo infinito; mas a misericórdia de Deus fez só o tempo infinito e a pena finita em quantidade: posto que justamente poderia dar-lhes pena muito maior do que a que é dada. Oh, que perigo é o pecado quando se comete com malícia! Porque o homem não se arrepende dele senão com muita dificuldade, e não arrependendo-se, permanece na culpa; a qual persevera nela tanto quanto o homem permanece nessa vontade do pecado cometido e na de cometê-lo. Purificadas do pecado, as almas purgantes sofrem gozosamente as penas. Por outro lado, as almas do purgatório têm sua vontade totalmente conforme a vontade de Deus; e por isso Deus corresponde com a sua bondade; e assim elas estão contentes no que a vontade se refere; e purificadas do pecado original e do atual no que se refere à culpa. Ficam assim as almas purificadas como quanto as criou Deus; pois por haver saído estas almas desta vida, descontentes e confessados de todos os pecados cometidos e com a vontade de não voltar a cometê-los, Deus perdoa imediatamente a sua culpa e não lhes fica mais, então, do que aquela cobertura ou escória do pecado, da qual se vão purificando no fogo com a pena. E assim purificadas de toda a culpa e unidas com Deus pela vontade, veem a Deus claramente, segundo o grau que a Ele alcança seu conhecimento; vendo também quanto vale e importa este gozo seu de Deus, e que é o fim para a qual as almas foram criadas. Com quanta violência de amor desejam as almas como criar um blog do purgatório alcançar o gozo de Deus. Exemplo do pão e do faminto. As almas do purgatório encontram uma conformidade tão unitiva com a de Deus, a qual tanto as atrai para si (pelo instinto natural de Deus com a alma), que não se pode dar-se uma figura ou exemplo que sejam suficientes para esclarecer uma coisa como esta, tal como a mente a sente e compreende em efeito pelo sentimento interior. De todos os modos, darei exemplo que se oferece ao entendimento. Se não houvesse em todo o mundo mais que um só pão, o qual servisse para matar a fome de todas as criaturas, e que por natureza, quanto está são, instinto de comer, e não comendo-o não pudesse ficar doente nem morrer por ele, aquela fome sempre cresceria, porque o instinto de comer não lhe faltaria nunca. Mas se o homem soubesse, então, que só aquele pão podia saciá-lo, e que não tendo-o não poderia satisfazer a sua fome, sofreria uma pena intolerável. Pois quanto mais se aproximasse daquele pão, sem podê-lo ver, tanto mais cresceria nele o desejo natural de comê-lo, o qual, por seu instinto, somente quer aquele pão que consiste todo o seu desejo. Se o homem que digo estivesse certo de que já nunca mais tornaria a ver o pão, naquele mesmo momento encontraria o seu inferno: como as almas condenadas, as quais são privadas de toda esperança de jamais ver o pão de Deus, seu salvador verdadeiro. Mas as almas do purgatório têm a esperança de ver o pão e sanar-se dele. Por isso só padecerão fome e sofrerão esta pena todo o tempo que estiverem sem poder saciar-se daquele pão de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e salvador, amor nosso. 

Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 2


Purgatório


Penas das almas do purgatório. A maior pena é a separação de Deus Por outro lado, sofrem aquelas almas uma pena tão extremada que não haveria língua capaz de explicá-la nem inteligência que pudesse compreender sequer uma centelha dela, se Deus por graça especial não se o mostrasse. Uma centelha disso é o que Deus por uma graça especial mostrou à minha alma; mas não posso expressá-lo com minha língua. E esta visão que me deu o Senhor do purgatório nunca mais se apagou de minha mente, e os direi dela o que puder, pois só entenderão aqueles aos quais o Senhor se digne abrir o entendimento. O fundamento de todas as penas é o pecado original e o atual. Deus criou a alma pura, simples e limpa de toda mancha do pecado; e com um certo instinto bem-aventurado fez Ele, do qual o pecado original com que a alma se encontra, a separa; e quando se apega ao pecado atual, então, se afasta mais de Deus a alma; e quanto mais se afasta, tanto mais se torna maliciosa, porque Deus lhe corresponde menos. E como todas as bondades que podem existir, o são por participação de Deus, o qual corresponde com as criaturas irracionais como Ele quer e tem ordenado, não abandonando-as nunca, e como à alma irracional corresponde Deus mais ou menos, conforme a encontre purificada do impedimento do pecado, por isso, quando encontra Deus uma alma que se aproxima de sua primeira criação pura e limpa, faz que aquele instinto bem-aventurado, se vá descobrindo e crescendo nela tanto, e com tal ímpetos e furor pelo fogo da caridade (a qual lhe dirige para os eu fim último) que pareca à alma uma coisa insuportável encontrar-se impedida para ele; e enquanto mais e melhor o vê assim a alma, tanto mais aumenta nela essa pena. Diferença entre os condenados e as almas purgantes. Como as almas que estão no purgatório já não têm culpa do pecado, não têm outro impedimento para chegar a Deus que somente aquela pena que o retarda fazendo que seu bem aventurado instinto não alcance esta perfeição. E vendo então, com certeza, quanto importa o mais mínimo impedimento, que é por necessidade de justiça que se atrasa nelas o cumprimento daquele instinto bem-aventurado, é porque nasce então para as almas aquele fogo extremado tão parecido ao do inferno; mas que é diferente por não haver mais nas almas purgantes nenhuma culpa, a qual é a que perverte a vontade dos condenados do inferno, aos quais Deus não lhes corresponde com a sua bondade, que é porque esses condenados permanecem naquela outra desesperada e pervertida vontade contrária à vontade de Deus. Assim vemos claramente que é a perversa vontade contrária à vontade de Deus que faz a culpa, e que perseverando a vontade má, persevera a culpa. Pois é por haver saído dessa vida com aquela vontade má, porque a culpa daqueles que estão no inferno não foi redimida e nem pode remir-se: porque já não podem trocar a vontade com a que saíram desta vida, já que naquela passagem a alma se estabiliza no bem ou no mal com a deliberação da vontade em que então se encontra; conforme está escrito: “Ubi te invenero“, isto é, na hora da morte, com a vontade de pecar ou com o descontentamento e arrependimento dos pecados “Ibi te judicabo.” E para este juízo não há possibilidade de remissão, porque depois da morte a liberdade do livre arbítrio torna-se imutável, pois a vontade torna-se fixa naquilo em que se encontrava no momento da morte. Aqueles que estão no inferno, por haverem-se encontrado no momento da morte com a vontade de pecar, levaram consigo a culpa infinitamente, e com ela a pena; que não é, entretanto, tanto como a que merecem, ainda que seja necessariamente sem fim. Mas aqueles outros do purgatório não têm mais que a pena, porque a culpa foi cancelada no momento da morte por eles mesmos, ao sentir-se descontentes por seus pecados e arrependimentos de haver ofendido com eles a Bondade Divina. E assim a pena é finita para eles e vai diminuindo com o tempo, como disse antes. Oh, que miséria das misérias a nossa, e tanto maior quanto a cegueira humana não a sequer vê! 


Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 1


Tratado do Purgatório



Estando, todavia na carne esta santa alma se viu colocada no purgatório do fogo do amor de Deus, o qual a abrasava e purificava totalmente quando tinha que se purificar, de modo que, ao passar desta vida para a outra, pudesse apresentar-se imediatamente diante de Deus, seu doce amor. Assim, em meio desse fogo amoroso, compreendia sua alma como estavam suas almas benditas no purgatório – pregando a miséria e mancha do pecado, que nesta vida ainda não fosse purgado. E estando deste modo no purgatório do amoroso fogo divino, estava unida a seu divino amor, contente com tudo aquilo que Ele nela operava e compreendendo-a do mesmo modo como as almas que estão no purgatório. Por isso dizia: Perfeita conformidade das almas purgantes com a vontade de Deus As almas que estão no purgatório, segundo o alcance do meu entendimento, não podem ter nenhuma outra afeição que a de estar neste lugar; e isto acontece por determinação de Deus. Não podem estas almas voltarem-se para si mesmas, dizendo por exemplo: “Já cometi tais e quais pecados, pelo que mereço estar aqui”, Tampouco podem dizer a si mesmas: “Eu não queria tê-los cometido, porque assim eu estaria agora no paraíso”. Nem sequer podem dizer de outras almas: “Esta sairá daqui antes de mim, ou eu sairei antes dela.” Não podem ter memória própria nem de nenhuma outra coisa, nem no bem e nem no mal, que possa causar-lhes maior aflição do que as que têm. Elas têm, ao contrário, tanto contentamento de achar-se dentro da ordem divina e de que Deus opere nelas como mais lhe agrade e o que mais o agrade, que não podem pensar de si mesmas com maior pena. Vendo somente as operações da vontade divina nelas, não podem ver outra coisa que isto, porque é tanta a misericórdia divina para conduzir o homem a si, que não há pena ou bem, então para o homem que possa acontecer como coisa sua, pois se desse modo sucedesse ou pudesse desse modo ver que o sucedia, não estaria como está dentro da caridade. Não podem ver sequer, essas almas do purgatório, que estão sofrendo por seus pecados; e não podem ter em sua mente esta representação deles porque com isto lhe sucederia uma imperfeição ativa, presente, que não pode dar-se neste lugar, porque nele não pode atuar o pecado. Estas almas não veem o motivo de estar no purgatório, mais que uma só vez, que é ao sair ou deixar a vida, e já não podem ver mais, porque de outro modo se lhes seria como uma propriedade sua o vê-lo, não podendo já ter nenhuma. Porque estando essas almas na caridade, e não podendo desviar-se dela com nenhum defeito atual, não podem crer e nem desejar outra coisa senão o puro querer da pura caridade, pois estando no fogo do purgatório estão dentro da ordem divina (o qual é a caridade pura) e não podem desviar-se o mais mínimo em nenhuma outra coisa porquês estão tão igualmente privadas de poder pecar como de poder merecer. Alegria das almas do purgatório e sua crescente visão de Deus. Exemplo da escória. Não creio que haja alegria nem contentamento capaz de comparar-se ao de uma alma no purgatório, a não ser o dos Santos no Paraíso. E este contentamento cresce a cada dia pela influência de Deus nessas almas, a qual vai crescendo conforme vai consumindo aquilo que o impedia. A escória do pecado era o impedimento e o fogo a vai consumindo pouco a pouco de modo que a alma se vai descobrindo cada vez mais ao influxo divino. Sucede como quando uma coisa está coberta ou tapada, não podendo corresponder à iluminação do sol, o que não é defeito do Sol, que ilumina continuamente, senão daquela oposição que lhe oferece a cobertura naquela coisa. Se, então ardesse, consumindo-se aquela cobertura, se descobriria a coisa ao Sol, e tanto mais corresponderia à iluminação solar quando a cobertura mais se fosse consumindo. Do mesmo modo a escória ou o bolor (o próprio pecado) é a cobertura das almas que no purgatório se vai consumindo pelo fogo, e quanto mais se consome, tanto mais, sempre, corresponde ao verdadeiro sol que é Deus. Por isso vai crescendo o contentamento conforme vai destruindo-se a miséria e se descobre a alma ao raio divino. E assim cresce um e míngua a outra sem que acabe o tempo. Porque não diminui a pena por isso, senão o tempo de estar nessa pena. E no que se refere à vontade, não é possível dizer que aquelas penas sejam tais penas porque se contentam ao ordenado por Deus, com cuja vontade para pura caridade está unida à vontade daquelas almas. 


Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova

Tratado do Purgatório


A Santa Missa celebrada pela Igreja Triunfante (Céu), Militante (terra), e Padecente (Purgatório), na qual as almas do purgatório recebem o consolo, e se aproximam cada vez mais do momento que contemplarão a Face de Deus.

Introdução O “Tratado do Purgatório” de Santa Catarina de Gênova († 1510) foi publicado em 1551, no “Livro da Vida admirável e Santa da Beata Catarina de Gênova“, no qual há uma explicação católica sobre o purgatório. Publicado em Gênova por Antonio Bellono no ano 1551, p. 94 e 05. Tradução da versão espanhola de J. Bergamin. A edição que foi traduzida para o espanhol foi publicada por F. Valeriano da Finalmaria, em Gênova em 1929. Desta edição foi copiado também a continuação, que traz algumas informações da vida da Santa: “Quando esta alma bendita, abismada no amor de Deus, desejava, se podia desejar, estando como estava privada de todo desejo, expressar a seus filhos espirituais aqueles sentimentos que tinha do seu doce amor, no qual estava submergida, dizia algumas vezes: Oh, se pudesse dizer aquilo que sente este coração, no qual me sinto arder e consumir totalmente! Então eles a diziam: Oh, madre, dize-nos alguma coisa se queres! E ela respondia: Não posso encontrar palavras apropriadas a tão fogoso amor, pois me parece que tudo o que eu dissesse seria tão diferente do que é, que faria injúria a este doce amor meu. O que somente posso dizer é isto: que se disto que sinto em meu coração caísse uma só gota no inferno, o transformaria todo em vida eterna, porque haveria tanto amor e tanta união com ele que os demônios se converteriam em anjos e as penas se mudariam em consolações, pois com o amor de Deus não pode haver pena. Um religioso que estava presente surpreso com essas coisas que ela falava, lhe disse: Madre, eu não entendo bem isto que disse mas se fosse possível, queria poder entender melhor. Filho, respondeu ela, tenho como impossível poder dizer outra coisa. Então aquele desejoso de entender mais, lhe disse: Madre, se eu tentasse dar alguma interpretação a suas palavras, e se esta interpretação a suas palavras lhe parecesse que coincidia com o seu pensamento, no-lo diria? A que contestou ela alegremente: Oh, doce filho meu, eu o creio. Então lhe disse o religioso: Poderia talvez ser o que disse deste modo: que o efeito do amor que sentes seja um íntimo calor unitivo, o qual une a alma com o seu Deus-Amor, e de tal maneira a une, por participação de sua bondade, que não discerne já a alma entre si mesma e Deus. E é tão admirável esta união que não há palavras para expressá-la, porque é impossível poder sentir, gostar nem desejar nenhuma outra coisa que não seja aquele amor unitivo. E como isto, que poderia ser vontade e honra do Amor-Divino, é todo o contrário que o interno, com seus demônio e seus condenados, porque estes estão em rebeldia para com Deus, se assim fosse, como dizes, é possível, que estes receberiam uma só partícula de tal união, ela os privaria da rebeldia que têm para com Deus, unindo-lhes, de tal forma com esse Deus-Amor que estariam já na vida eterna, porque é sua rebelião contra Deus o que lhes faz estar no inferno (o qual se encontra em todo lugar onde há esta rebeldia). E, por isso, se houvesse essa partícula de união que dizes, naquele lugar em que estão, não seria mais esse lugar o inferno, mas seria a vida eterna, pois esta se encontra ali onde há tal união divina. Ao escutar tudo isto a Madre parecia tão gozosa, que com um rosto alegre lhe disse para terminar: Oh, doce filho meu!, assim acontece de fato, como você disse, pois assim é de fato.” A versão da vida e escritos da santa foram relatados por seus discípulos prediletos: Marabotto e Ectore Vernazza. A autenticidade do “Tratado do purgatório” foi posta em dúvida por Hügel em seus estudos sobre a Santa (Sanches, 1923). Hügel o atribui em parte à santa como o diálogo espiritual, a Battistina Vernazza. Finalmaria, na edição a que nos referimos, parece justificar o contrário, seguindo o texto de 1551, que é, efetivamente, o publicado por Battistina Vernazza, a discípula da santa. O título com que foi conhecido este texto era: Tratado do purgatório da Beata Madona Catarinetta Adorna. Santa Catarina nasceu em Gênova no ano 1447. Foi da família Güelfa dos Fieschi. Se casou em 1463 com Giuliano Adorno. A pouca felicidade de seu casamento a foi desencantando pouco a pouco do mundo. “Não mais mundo, não mais pecado!” clama em 1473, ao se converter a uma nova vida cristã. Desde então, até a sua morte em 1510, a vida da santa foi progressivamente subindo na devoção e na penitência, até alcançar aqueles dois anos de sua vida em que ela nos conta que viveu o seu purgatório.


(J.B.) Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.

O Purgatório

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