segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Meditação Final - Lições do Purgatório Meditação para o dia 30 de Novembro

 



Lições do Purgatório

Meditação para o dia 30 de Novembro

Antes sofrer agora… depois… depois será terrível! Agora, nossas orações, sacrifícios esmolas têm um valor de certo modo infinito, pelos méritos do Sangue Preciosíssimo de Jesus Cristo. Podemos fazer por nós, isto é, ganhar para nossa alma aqui, e para as almas que sofrem no purgatório. Depois… ah!, quando nossa alma se separar do corpo, daremos contas até de uma palavra ociosa, como diz o Evangelho, e pagaremos até o último ceitil das nossas dívidas para com Deus. Agora quanto mérito e quanta riqueza para a vida eterna!

Aproveitemos o tesouro da misericórdia de Deus. Não abusemos da graça. Aproveitemos, sobretudo, o tesouro infinito da Santa Missa.

É o que melhor podemos dar às almas de nossos entes queridos. A Santa Missa é o primeiro e o maior dos sufrágios pelos mortos. Por ela se apagam nossos pecados e aliviadas são as almas do purgatório.

Afirma São Jerônimo, um dos grandes Doutores da Igreja: Enquanto a sacerdote celebra a Santa Missa, muitas almas são libertadas do purgatório.

E São Leonardo de Porto Maurício, o grande Missionário e apóstolo, fala indignado dos que se esquecem dos seus mortos queridos e não lhes sufragam as almas, que talvez sofram nas chamas expiadoras:

“Permiti que eu vos diga, fala o Santo, se há gente avara e sem coração é a que não serve nem manda celebrar uma só Missa pelos seus mortos e que até desvia legados e esmolas de sufrágios. Piores que os demônios. Os demônios atormentam os condenados e estes atormentam as almas santas do purgatório!”

Oh! Não nos esqueçamos dos nossos graves deveres para com nossos defuntos! Pelo amor de Deus, vamos: sufrágios, orações, sacrifícios, esmolas pelas almas benditas do purgatório!

Veremos quantas graças nos virão do céu por esta caridade! A ingratidão nunca entrou no purgatório, disse Santa Margarida Maria. O que fizermos pelas almas, receberemos cem por um e o reino dos céus.

dogma do purgatório contém ensinamentos de uma verdadeira escola de perfeição. Quem pensa o que é e o que se padece, depois desta vida, para expiação e purificação da alma antes de ver a Deus, não teria o orgulho e o descuido da sua perfeição, como vemos hoje em tantas almas, mesmo piedosas, mas esquecidas da tremenda realidade do purgatório.

Quanto mais pensarmos no purgatório, mais o havemos de procurar evitar ou atenuá-lo.

Descendamus in infernum viventes, ne descendamus morientes, dizia São Bernardo. Isto é: desçamos ao inferno pela meditação enquanto estamos vivos, para lá não irmos depois da nossa morte.

Assim também façamos com o pensamento do purgatório. Vamos, sim, vamos sempre meditar esta verdade, para que a impressão salutar que ela nos causa nos ajude a tender a perfeição, a procurar ter um pouco mais de zelo pela nossa santificação.

Dizia uma santa alma: Oh! Se os homens soubessem o que lhes custará, na outra vida, a vida de pecado que levam, mudariam o modo de proceder!

A Sorte das Almas em nossas Mãos

Num dia de Finados, o grande rei da oratória sacra francesa lembrava aos fiéis do seu tempo estas verdades que acho bom e útil recordar aos leitores meus de hoje:

“Cristãos, permiti-me uma reflexão da qual me sinto penetrado e espero de vós o mesmo. Temos zelo pela glória de Deus, mas, em nossa ignorância e inescusável grosseria não aplicamos este zelo, muitas vezes devidamente nos verdadeiros interesses de Deus, um exemplo.

Admiramos estes homens apostólicos que, levados pelo Espírito Divino, atravessam os mares e vão ganhar para Deus as almas dos infiéis em países de bárbaros. No entanto, sabeis que a devoção às almas do purgatório, o alívio e a libertação destas pobres almas é uma obra de zelo que em relação ao seu objeto não é inferior à conversão dos pagãos, e de certo modo a ultrapassa?

Como? perguntarei. Sim, porque as almas do purgatório, almas santas e predestinadas, confirmadas em graça, são incomparavelmente mais nobres que as dos pagãos. Estão atualmente num estado mais próprio da glorificação de Deus que os pagãos…

As almas que sofrem no purgatório estão num estado de violência, porque privadas se acham da vista de Deus. Todavia, deveis saber, o purgatório é um estado de violência para o próprio Deus. Ora, em que consiste este estado de violência em relação a Deus? Ei-lo:

No purgatório Deus vê as almas e as ama com sincero amor, amor de Pai enternecido. E no entanto não lhes pode fazer bem algum.

Almas cheias de mérito, de virtudes e de santidade, e que não podem ainda receber a recompensa. A nós cabe a missão de livrar estas almas. E Deus, tão misericordioso, as deve punir. O amor de Deus é uma torrente que há de inundar as santas almas no céu e, no entanto, pela violência da sua justiça, as deve purificar nas chamas expiadoras”

E nossas mãos está, pois, a sorte das almas do purgatório. E não havemos, pois, de as socorrer?

Ide, exclama São Bernardo, voai em socorro das almas do purgatório. Intercedei por elas com vossas orações. Oferecei por elas o santo sacrifício da Missa!

A sorte das almas sofredoras está em nossas mãos. Diz a Sagrada Escritura: Benefac justo et invenies retribuitionem magnam. Fazei o bem ao justo e tereis grande recompensa. As almas do purgatório são santas almas de justos, cheias de méritos e de virtudes. Quanta santidade naquelas chamas expiadoras! Pois bem. Tudo o que fizemos por elas terá grande recompensa. É a palavra de Deus que no-lo garante!

Resoluções

Finda-se o mês de Novembro. Espero tenha sido para vós, leitores queridos como vos pedi, um mês de muito sufrágio e lembrança caridosa dos mortos.

O dogma do purgatório é mister seja sempre lembrado. Faz bem à nossa alma e às almas de nossos caros defuntos.

Portanto, vamos às resoluções:

1.ª — Não passarmos um só dia sem orar pelas almas do purgatório.

2.ª — Ofereçamos, pelos defuntos, esmolas aos pobres, atos de caridade.

3.ª — Cumpramos o dever de justiça e de caridade, mandando celebrar a Santa Missa por alma de nossos entes queridos, pais, parentes e benfeitores.

4.ª — Em vez de muita pompa fúnebre e lágrimas de desespero, sufrágios, sufrágios e piedosa meditação do purgatório.

5.ª — Finalmente, escolhamos cada ano o mês de Novembro para alívio das benditas almas por especiais sufrágios. Cada segunda-feira, se for possível, a assistência à Missa, uma Comunhão, um Terço pelas almas do purgatório, sobretudo as mais abandonadas.

A devoção às almas do purgatório é a grande devoção da hora. Nunca foi mais necessária como nestes tempos calamitosos. São tantos os que morrem cada dia e tantas as pobres almas abandonadas!

E demais, esta devoção nos oferece as vantagens:

1.ª — Aumenta o nosso mérito pela caridade. É uma fonte de paz interior.

2.ª — Temos a certeza de sermos agradáveis a Nosso Senhor, a Maria Santíssima e aos Eleitos do Paraíso. E já não disse Santo Tomás que a oração pelos mortos é mais agradável a Deus que a que fazemos pelos vivos?

3.ª — As santas almas conhecem seus benfeitores e… a ingratidão nunca entrou no purgatório.

4.ª — Esta devoção, diz Bourdaloue, é um sinal de predestinação. Quem a possui tem como que um caráter, um selo de predestinado, ó, dizia o célebre orador, se Deus me fizesse conhecer uma alma libertada do purgatório pelas minhas orações, com que confiança não a invocaria eu!

5.ª — Depois de nossa morte, Deus há de inspirar aos nossos amigos e parentes, façam eles por nós o que fizemos pelas santas almas.

Quem ora pelas almas, disse o Papa Adriano VI, as obriga ao reconhecimento e a rezar também pelos seus benfeitores.

“Tudo que oferecemos? Por caridade aos defuntos se muda em méritos para nós, e depois da morte acharemos estes méritos”, escreve Santo Ambrósio.

Podemos pedir a proteção divina pelos sufrágios às santas almas. É um ato de caridade tão meritório, que nossa oração toca logo o Divino Coração de Jesus.

Como é doce e consolador poder orar pelos nossos mortos, vivermos em união com eles pelo sacrifício do altar e nossa preces!

Na verdade, santo e salutar é o pensamento de orar pelos defuntos, no dizer dos Macabeus do Livro Sagrado.

Requiem aeternam dona eis, Domine! — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!

Exemplo: A Piedade Filial Recompensada

Em Ravena, na Itália, vivia um pobre menino órfão de pai e mãe, entregue aos cuidados de um irmão mais velho que muito o maltratava. O pobrezinho vítima de tantos maus tratos era uma criança de uma inteligência viva, de um grande coração, e muito piedosa. Um dia, ao passar por uma rua, encontra uma moeda de prata. Um sorriso de alegria lhe aflorou aos lábios descolorados pela miséria. Pelo menos naquele dia teria algum dinheiro para comer. Andava tão fraco de fome a vagar pelas ruas. Depois, refletiu um instante:

— Meu pai morreu. Deve talvez estar no purgatório e sofrer muito. Prefiro morrer de fome a deixar sem uma Missa a alma de meu pobre paizinho.

Entra numa igreja, procura um sacerdote e lhe diz:

— Padre, achei esta moeda de prata e penso na pobre alma de meu pai, que deve estar no purgatório . Sou muito pobre, e meu pai sem socorro.

O sacerdote achou aquilo admirável numa criança. Indagou a origem do pequeno, notou ser um menino vivo e muitíssimo inteligente e piedoso, pois havia recebido boa formação religiosa dos pais, já mortos. Resolveu adotar o menino; recebeu-o em casa, deu-lhe educação e estudos, e mais tarde veio a ser sacerdote e um grande talento, um gênio, um santo Doutor da Igreja: São Pedro Damião.

Vede como Nosso Senhor recompensa os que se interessam pelas almas do purgatório e sobretudo recompensa a piedade filial dos que não apenas choram, mas não se esquecem do sufrágio e da Santa Missa pelos seus pais já mortos.

É um dever de justiça e de caridade rezar pelos pais mortos.

Voltar para o Índice do livro Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! de Mons. Ascânio Brandão e não esqueça de rezar a Ladainha pelas Almas do Purgatório

(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 237-248)

domingo, 28 de novembro de 2021

As Últimas Vontades dos Mortos - Meditação para o dia 29 de Novembro

 


Meditação para o dia 29 de Novembro

Somos obrigados a executar com justiça e consciência as últimas vontades dos nossos mortos. O que no leito de morte nos pediram, o que deixaram em testamento seja respeitado, porque daremos contas severas a Deus desta tremenda injustiça se lesarmos os direitos dos mortos e não cumprirmos suas últimas vontades.

As pobres almas do purgatório são vítimas da Justiça de Deus, porque devem expiar seus pecados, e muitas vezes também vítimas das injustiças dos homens. Herdeiros que defraudam os bens dos mortos e nem se lembram de lhes sufragar a pobre alma com uma só Missa! Filhos que discutem e se odeiam por uma miserável herança e cometem toda sorte de injustiças, lesando-se mutuamente numa louca ambição, ao invés de em paz honrarem a memória dos pais e cumprirem as cláusulas dos testamentos. É uma das mais tremendas injustiças. Lesar os vivos é um pecado, mas lesar os mortos tirando-lhes os sufrágios por injustiça, é um pecado que só pode atrair a vingança de Deus. Diz o Espírito Santo que haverá um juízo sem misericórdia para quem não usou de misericórdia.

“Que juízo tremendo e duro não há de ser o de quem defraudou os direitos dos mortos ? Lesar um pobre, disse o Quarto Concilio de Cartago, é se fazer assassino do pobre”

Que não será o que lesa o direito das pobres almas?

Cumpramos as últimas vontades de nossos mortos com muito escrúpulo e cuidado, porque, ai de nós se não o fizermos! Têm-se visto castigos tremendos pesar sobre os que roubam os direitos dos defuntos. Se deixaram legados para Missas, dinheiros para obras de caridade, propriedades para determinados fins, respeitemos estas vontades! Façamos executar o mais depressa possível os testamentos. Principalmente não retardemos as Missas que deixaram para serem celebradas. É um perigo! Tomemos bem nota das últimas recomendações dos agonizantes. O Concilio de Trento recomenda aos Bispos que velem atentamente o cumprimento dos legados feitos pelos fiéis defuntos. Vários concílios chegam a lançar excomunhão sobre os que cometem injustiças e fraudes nos legados, sobretudo de Missas. É preciso cumprir com fidelidade os testamentos o mais depressa que for possível. As demoras muita vez importam em grande sofrimento no purgatório para os defuntos e prejuízo para os vivos.

Muito cuidado com os testamentos! Procurai não entregar, a não ser em mãos seguras, os legados de Missas. São os mais sérios e importantes. Segundo muitas revelações particulares, estas injustiças têm custado anos e até séculos de purgatório a muitos! Não se roube o que é do direito dos fiéis defuntos!

Lembremo-nos das expressões severas do Concilio de Cartago: “Egentium necatores” — são assassinos das almas necessitadas, os que lesam os testamentos e não cumprem as últimas vontades dos mortos. Depressa, sem hesitação sejamos fidelíssimos e pressurosos em cumprir as últimas vontades dos mortos. Com isto nos livraremos de muitos castigos. Não se brinca com o severo juízo de Deus na defesa dos direitos dos mortos!

Respeitai os Mortos!

Estamos numa época de lamentável ausência de respeito e veneração pelas coisas sagradas. Uma hora de impiedade e irreverência. O homem moderno paganizado zomba de tudo, deturpa a verdade, nada leva a sério. Uma das manifestações mais dolorosas desta irreverência é o desrespeito à memória dos defuntos, e quando não os deixam no esquecimento, zombam deles, ou os trazem à baila em anedotas e conversas imorais.

É uma impiedade. Respeitemos a memória dos defuntos. Os pagãos tinham este senso quando diziam: parce sepultis! Perdoa aos mortos! Cometeram erros? Foram maus? Já estão entregues à Justiça de Deus. Rezemos por eles! Que poderemos fazer então? Não nos podemos vingar dos defuntos. Podemos lamentar o que fizeram, mas sejamos discretos e não vamos muito além do que pode mandar a justiça ou a reparação de algum escândalo que deixaram.

Nosso povo graças a Deus é tão delicado e sensível à memória dos defuntos! Como é edificante ouvir sempre a nossa gente se referir aos defuntos com expressões de caridade e respeito: Deus lhe perdoe! Deus o tenha em bom lugar! Deus que o não castigue na eternidade! É este o modo de falar do povo. É mister conservá-lo e guardemos esta tradição de respeito pelos mortos. Infelizmente, uma imprensa sem critério e irreverente e até imoral vai arrancando do povo este sentimento delicado. Hoje ouvem-se referências estúpidas e atrevidas à memória até de entes queridos. Com que linguagem se referem alguns aos mortos! Anedotas grosseiras, brincadeiras de mau gosto, com os defuntos e com motivos fúnebres! Não, isto não pode ser! Os pagãos não admitiriam isto, porque entre eles o culto dos mortos é sacratíssimo. E cristãos civilizados desrespeitam a memória até dos seus entes queridos! É isto fruto do materialismo de nossa época.

Eduquem os pais no lar aos filhos, no culto e na reverência aos mortos. É um capítulo da boa educação. A Igreja cerca de veneração os cadáveres, manda-nos reverenciar os mortos e orar por eles no dia de Finados. Por que havemos de permitir que até no seio de famílias cristãs se brinque e se zombe da memória sagrada de nossos defuntos?

Outro sintoma alarmante desta irreverência é o desrespeito nos enterros e nas cerimônias fúnebres. Missas de sétimo dia e aniversário nas quais se veem nos templos além da indiferença para com o altar, verdadeiras profanações nas atitudes e conversas. Enterros nos quais se fumam e as palestras versam sobre assuntos até impróprios. Enterros sem uma oração, sem uma manifestação de fé cristã! É doloroso, é lastimável tudo isto! Somos um povo de tradições piedosas e de veneração pelos mortos. Porque não guardar estas tradições que, graças a Deus, ainda vigoram por aí afora em nosso interior, onde esta estúpida civilização paganizada ainda não chegou. Felizmente, muitas famílias nossas ainda conservam nossos hábitos cristãos e piedosos do culto dos mortos. Todavia, é mister façamos uma campanha pelo respeito nos funerais, pelo respeito aos defuntos.

Sejamos Apóstolos do Purgatório!

Sejamos apóstolos do purgatório! Que significa isto? Há o apostolado da salvação das almas neste mundo, apostolado necessário, urgente e indispensável, dizia Pio XI aos leigos da Ação Católica. Todo sacerdote foi chamado por Deus a salvar a sua alma com uma condição: a de salvar também as almas dos seus irmãos. Onde há almas que possam glorificar a Deus, lá deve estar o apóstolo para lutar por elas e salvá-las. Há multidões de pobres almas sofredoras nas chamas expiadoras do purgatório. Podemos ficar indiferentes à sorte das pobres almas? É nosso interesse também trabalhar pelo purgatório.

“Eu nunca vi, disse Santo Agostinho, eu nunca vi e não me lembro de ter lido jamais que aquele que reza pelos mortos tenha tido morte no pecado, ou simplesmente duvidosa”

Não queremos salvar nossa alma? Procuremos esta garantia que nos poderá dar da perseverança final, a nossa perseverança na caridade para com os defuntos.

Nosso Senhor socorre os que socorrem os mortos.

Façamos tudo que pudermos para que se multipliquem os sufrágios das almas. Um zelo engenhoso procura sempre ocasiões e não perde oportunidade de fazer o apostolado do purgatório. Propaganda de bons livros que tratem do assunto, distribuição de folhas volantes, orações, etc. É mister propagar o uso da Comunhão mensal pelos mortos, o rosário pelas almas, as novenas, e sobretudo uma campanha pela Santa Missa. Mandar celebrar Missas pela alma dos pobrezinhos, fazer economias nos cofrezinhos das almas, para Missas. Ao invés de tantas promessas inúteis, mandar celebrar Santas Missas pelas almas mais abandonadas, a fim de alcançar de Nosso Senhor por esta caridade as graças desejadas.

Finalmente, há uma prática que se vai propagando entre nós e que tem dado excelentes resultados e concorrido muito para incrementar a devoção pelo purgatório: é o Natal das Almas. Em que consiste? Não costumamos ser carinhosos e festejarmos o Natal de Jesus com presentes e obséquios aos nossos pobres? Pois lembremo-nos daquelas miseráveis e pobres almas que gemem no purgatório, vamos preparar-lhes um Natal de sufrágios. Durante alguns meses antes do Natal, ou melhor, durante o ano todo, vamos formando um tesouro espiritual de Missas mandadas celebrar, Missas assistidas, Comunhões, esmolas, mortificações, Vias Sacras, Novenas das almas, enfim, um ramalhete com toda sorte de sufrágios, e ofereçamos tudo pelo Natal das Almas, para que Nosso Senhor dê às pobres Almas sofredoras um Natal no céu, um Natal eterno na Glória. Preparemos cada ano este Natal das Almas. É um meio de estimular a devoção e socorrer muitas almas abandonadas do purgatório.

Enfim, o que não há de inventar o zelo esclarecido de uma alma caridosa e que compreende a necessidade e o sofrimento das almas do purgatório!

Sejamos apóstolos do purgatório. Na hora da morte e na eternidade, havemos de ver quantos méritos e quantos favores do céu receberemos por esta grande caridade!

Exemplo: As últimas vontades de nossos mortos

É preciso muito cuidado e muito escrúpulo no cumprimento das últimas vontades de nossos defuntos. Executemos as suas ordens e testamentos com toda justiça, porque muitas vezes os maus herdeiros ou ingratos não cumprem o que lhes foi deixado em testamento e fazem sofrer no purgatório as pobres almas e preparam também para si próprios um terrível purgatório, porque Deus sempre castiga os que são causa do sofrimento das pobres almas.

Conta o Pe. Rossingnoli em seu livro “As maravilhas das almas do purgatório”, este exemplo entre muitos:

Em Milão, uma fertilíssima plantação ficou destruída por uma chuva de pedras, que tudo devastou. E o que era para se admirar é que em torno do sítio não caiu um só granizo e nem houve estrago por menor que fosse. Foi revelado o castigo de Deus sobre os seus donos. Aquela propriedade era de uns jovens que a haviam herdado do pai, falecido, e não cumpriram as últimas vontades do defunto. Trabalhavam aos domingos e se esqueciam de sufragar a alma do pai.

Outro fato se conta do tempo de Carlos Magno. Narra um antigo cronista que um bravo soldado que havia seguido o grande Imperador em todos os campos de batalha, ao sentir se aproximar a morte chamou um neto, único herdeiro do que possuía, e lhe disse:

“Meu filho, toda a minha riqueza consiste nas armas e no belo cavalo que possuo. As minhas armas ficarás com elas e o meu cavalo será vendido e o preço entregue aos sacerdotes, a fim de que uns me socorram com as orações e outros com o Santo Sacrifício da Missa por minha alma”

O neto, em pranto, prometeu cumprir a vontade do avô agonizante. Todavia, mal o havia sepultado, já se esquecera das recomendações. Pensou consigo: “este cavalo tão belo eu o venderei mais tarde e cumprirei a última vontade de meu avô. Vou aproveitá-lo antes”.

E passavam-se dias e meses e o jovem em passeios a cavalo. Passaram-se seis meses e um dia o avô lhe aparece:

— Ai! Meu neto ingrato e cruel! Não tivestes piedade do teu desgraçado avô… Onde está o que me prometestes? Por tua causa estou padecendo horrivelmente nas chamas do purgatório, mas Deus teve piedade de mim e hoje mesmo vou para o céu. Por justo castigo de Deus deverás sofrer no purgatório as penas que me faltam, e morreras logo.

Poucos dias depois o jovem caia doente e em estado grave. Mandou chamar um sacerdote, fez uma boa confissão e narrou-lhe a aparição e a sua falta. Morreu piedosamente e na certeza de ir padecer no purgatório o sofrimento de que foi causa ao pobre avô, pelo descuido em cumprir suas últimas vontades.

Não defraudemos os mortos! A causa dos mortos está entregue à Justiça de Deus!

Voltar para o Índice do livro Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! de Mons. Ascânio Brandão e não esqueça de rezar a Ladainha pelas Almas do Purgatório

(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 229-236)


sábado, 27 de novembro de 2021

Como evitar o Purgatório? - Pode-se evitar o Purgatório? Meditação para o dia 28 de Novembro

 



Pode-se evitar o Purgatório?

Meditação para o dia 28 de Novembro

Há em geral entre muitos a ideia de que é impossível entrar no céu logo depois da morte, principalmente quando se pensa na Justiça de Deus, na Santidade Divina e a miséria humana. O purgatório não é sempre inevitável. Pode-se evitar o purgatório e é vontade de Deus que façamos tudo neste mundo para merecer logo o céu. É impossível! É dificílimo!… Sim, difícil, não há dúvida, mas impossível, nunca! Não digamos como tantos: contanto que eu arranje um lugar no purgatório… Por humildade, e em verdade, podemos falar assim, mas por covardia e para afrouxarmos no trabalho da nossa perfeição, nunca o podemos dizer, nem proceder assim. Havemos de fazer tudo para evitar o purgatório.

“Aqui, disse Santa Catarina de Genova, pagamos com um, a dívida de mil, e na outra vida precisamos de mil para pagar um… Está em nossas mãos ganhar muito e preparar a entrada do céu logo depois da morte”

Santa Teresa viu almas entrarem no céu sem terem passado pelo purgatório. Procurar evitar o purgatório é o melhor meio de se livrar dele. Evitemos o pecado venial, sejamos fiéis ao nosso dever, tenhamos uma grande pureza de intenção em nossos atos. Façamos muitas obras de caridade, fujamos de toda vaidade e hipocrisia em nossas ações, sejamos sinceros, humildes, simples, tenhamos paciência em nossos sofrimentos, sejamos resignados à vontade de Deus em todas as coisas. Quantos meios ao nosso alcance para evitarmos o purgatório! Zelemos a pureza de consciência e a pureza de intenção. Não é impossível escapar do purgatório. Está em nossas mãos. Uma alma fervorosa se abrasa neste mundo nas chamas do Divino Amor que purifica cada dia mais e se santifica de tal modo, que logo se lhes abram as portas do céu.

Fazer esforços para evitar o purgatório não é, como dizem alguns, uma covardia. É glorificar a Deus, é estimular a nossa perfeição, é corresponder à graça com generosidade, enfim, é um dos meios mais poderosos e eficazes de santificação. Temos muita miséria e fraqueza. Vivamos num estado de compunção, contritos e humildes. Não tenhamos a presunção que perde tantas almas e as leva a esperar o céu com tão pouco sacrifício!

Enquanto estamos neste mundo, somos os milionários da graça e dos tesouros da Redenção. Somos mais felizes do que os Santos do céu e as almas do purgatório. Eles não podem mais merecer, nem trabalhar para a salvação e para a glória do céu, como nós agora. Então, por que não aproveitarmos estas riquezas de valor infinito? Um dos maiores tormentos das pobres almas é o remorso. Que verme roedor! Pensarem elas que poderiam ter sofrido tão pouco e trabalhado um pouco mais, e já estariam no céu e teriam salvo tantas almas e feito tanto bem quando estavam neste mundo, e desperdiçaram os tesouros do Sangue Precioso de Jesus e agora padecem tanto! Poderiam ter evitado o purgatório… E nós?

Meios de evitar o Purgatório

O primeiro e o único verdadeiro é evitar o pecado venial e toda imperfeição, exceto aquelas quase impossíveis à fragilidade humana. Sem privilégio especial não é possível ao homem evitar todas as faltas, diz o Concilio de Trento. Pelo menos, lutemos e tenhamos boa vontade. Tenhamos horror ao pecado, mesmo venial. Demos muita importância ao que é de perfeição, sobretudo os Religiosos à observância da Santa Regra. Há outros meios de evitar o purgatório. Entre eles, os meios sacramentais — o Batismo. Uma alma recém batizada que morre está livre de toda pena, tem o céu imediatamente. Felizes as criancinhas inocentes e felizes, os que morreram com a inocência batismal!

A confissão frequente, bem praticada, com sincero arrependimento, com emenda de vida cada dia mais, é um meio poderoso de vigilância, de combate às faltas e imperfeições. Uma confissão semanal ou de quinze em quinze dias para lucrar as indulgências, e confissão sem rotina, bem preparada, bem contrita, como purifica a alma e vai fazendo seu purgatório nesta vida! Como é poderosa a absolvição que nos dá o sacerdote; e a penitência sacramental, embora tão pequena, tem muito valor para a remissão da pena temporal.

E a Eucaristia? Não apaga o pecado venial e nos purifica cada vez mais, dando-nos força para a luta? Ó, as almas eucarísticas, unidas ao Senhor na intimidade do seu Amor, abrasadas nas chamas deste Amor, podem temer as chamas do purgatório? Purifiquem-se muito bem para a Comunhão aqui na terra, que estarão se purificando para a Visão eterna do céu logo após a morte. Uma alma verdadeiramente eucarística não teme o purgatório. Depois, temos a riqueza da Extrema Unção e da Bênção apostólica na hora da morte. Falaremos depois destes meios, chaves do céu e libertadores do purgatório. E demais, os religiosos, por exemplo, têm os méritos da vida comum, as indulgências da Ordem ou Instituto religioso, as penitências, as meditações, as boas leituras, enfim a multidão dos recursos espirituais que bem aproveitados, escrupulosamente, cada dia, sem ser mister que se entreguem a coisas extraordinárias e difíceis e até impossíveis, quantos meios para evitarem o purgatório com a simples fidelidade à Regra! A perfeita observância, como diz São Bernardo, pode levar da cela para o céu – “De cella ad coelum”.

Evitarão o purgatório as almas simples e inocentes, aqueles pobrezinhos ignorantes que sempre viveram numa profunda humildade a servirem a Deus na simplicidade do seu coração. Quantos destes pequeninos amados de Nosso Senhor após os sofrimentos desta vida não passam diretamente para o céu!

Enfim, é o segredo de Deus, o mistério insondável. E a caridade? Não nos foi prometido cem por um e o reino do céu pelas boas obras de misericórdia? Quem pode duvidar que uma alma caridosa que passou a vida a fazer o bem aos pobres e desgraçados, não tenha o céu logo após a morte? Ó, sim, podemos evitar o purgatório, e direi mais, devemos evitar o purgatório. Esta é a vontade de Deus!

A Extrema Unção e Indulgência Apostólica

A Extrema Unção tem o poder de nos abrir logo as portas do céu. É a opinião do angélico Santo Tomás:

“A Extrema Unção acaba a cura espiritual do homem e faz desaparecer de sua alma tudo quanto poderia impedi-lo de entrar na glória e consuma sua preparação para a vida eterna”

Supõe naturalmente que o enfermo a receba com as devidas disposições. A Extrema Unção é como que o complemento da penitência. Esta redime os pecados e aquela faz desaparecer os restos do pecado. Um dos efeitos da Extrema Unção é fortificar a alma contra o temor exagerado da morte e ajudá-la a se conformar inteiramente à vontade de Deus. Só este ato de conformidade, diz Santo Afonso, pode levar uma alma logo para o céu sem passar pelo purgatório, porque é um ato de caridade de grande valor. Enfim, que tesouro desconhecido é a Extrema Unção, e tantos deixam de a receber na hora extrema porque os parentes e amigos, com receio de assustar o enfermo, o privam deste recurso! Na sua Teologia moral, Santo Afonso conta esta visão: Percebeu no purgatório a alma de um homem seu conhecido e foi-lhe revelado que este homem não teria morrido da doença que o levou a sepultura, se tivesse recebido a Extrema Unção. A virtude do Sacramento o teria curado e teria se livrado de um purgatório tão doloroso e menos longo do que o que estava padecendo (1).

Por que então deixar os enfermos sem a Extrema Unção, sob o pretexto de que é o sacramento que mata, apressa a morte e assusta o enfermo? Um dos efeitos do Sacramento é curar também o corpo, e o maior de todos, curar a alma de todos os males e consequências do pecado, e abrir-lhes as portas do céu. A Igreja, nossa Mãe, tem outro tesouro à nossa disposição na hora derradeira: é a Indulgência plenária ou apostólica. Esta indulgência nos pode abrir logo o céu. Vejam as preces do sacerdote ao dá-la aos enfermos:

“Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, que deu ao Bem-aventurado Apóstolo Pedro o poder de ligar e desligar, pela sua piíssima misericórdia, receba a tua confissão e te restitua a estola primeira que recebeste no Batismo. E eu, pela faculdade que me foi dada pela Sé Apostólica te concedo a indulgência plenária e a remissão de todos os pecados em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo”

Que beleza! A inocência do Batismo restituída a um pecador na hora da morte! Não é a porta do céu? E o sacerdote acrescenta, para confirmar a absolvição:

“Pela Sacrossanta Humanidade e pelos mistérios da reparação humana, o Deus Onipotente te perdoe todas as penas desta e da futura vida, te abra as portas do paraíso e te leve à felicidade eterna”

Haverá maior riqueza para um cristão? Até as penas da outra vida, isto é, as do purgatório estão remidas pela indulgência plenária. Meditemos bem as orações e o rito da Extrema Unção, procuremos nos preparar sempre para recebermos na hora derradeira com as devidas disposições a Indulgência plenária ou Apostólica.

Eis aí quantos meios de evitar o purgatório à nossa disposição! Não é pois verdade que podemos nos livrar do purgatório?

Exemplo: As Irmãs Auxiliadoras do Purgatório

Em 21 de Novembro de 1855 uma jovem piedosa lia num opúsculo, “O Mês do Purgatório”, por um autor desconhecido, esta página profética e suplicante:

“Ó Espírito Santo, vós suscitastes, em épocas diferentes, ordens religiosas de toda espécie para todas as necessidades da Igreja militante. Ó Pai das Luzes, cheios de compaixão e de zelo pelos mortos, nós vos suplicamos, suscitai também em favor da Igreja padecente uma nova ordem cujo fim principal seja se ocupar dia e noite no alívio e na libertação das almas do purgatório…”

Quem lia isto, comovida e inspirada, era a senhorita Eugênia Maria José Desmet. Sempre foi uma alma piedosa e desde pequenina teve uma devoção ardente pelas almas do purgatório e uma inclinação pelos pobres e miseráveis, aos quais procurava sempre amparar caridosamente. Ao ter a inspiração tão forte da fundação de uma obra para socorro das almas do purgatório, não pode mais ter sossego. Era uma alma sincera, um espírito muito equilibrado e nada sujeito a fantasias. Neste mesmo dia 1.º de Novembro, ao sair da igreja, a senhorita Desmet encontra uma amiga que lhe fala na necessidade de uma associação em favor das almas do purgatório. Era uma coincidência muito estranha! A piedosa jovem sabia que era necessário agir, mas tinha medo de ilusões, e pediu a Nosso Senhor alguns sinais da sua Santa Vontade. Queria cinco graças: a bênção do Papa para a obra — a aprovação de diversos Bispos — a extensão rápida da Associação — um certo número de almas piedosas que se destinassem a este apostolado — e um padre que tivesse a mesma ideia.

Em menos de dois anos alcançou tudo quanto desejava. O projeto foi apresentado a Pio IX, que o aprovou de todo coração. Diversos senhores Bispos, e entre eles o Arcebispo de Paris, deram a sua bênção e aprovação rapidamente. O padre que tivesse a mesma ideia, seria o Santo Cura d’Ars. A senhorita Desmet nunca viu nem escreveu ao Cura d’Ars, mas através do Pe. Tocanier coadjutor do Santo, foi este consultado. São João Maria Vianney disse:

“Diga a ela, referia-se a M. Desmet, diga a ela que estabeleça uma congregação pelas almas do purgatório quando ela quiser”

Não ficou satisfeita ainda a senhorita. Queria que o Santo Cura d’Ars meditasse e rezasse para saber se era da vontade de Deus o projeto. Assim o fez. Num dia de finados, o Santo passou de joelhos longa hora, rezou muito e levantando-se com os olhos banhados em lágrimas, disse ao Pe. Tocanier:

“A obra é inspirada por Deus, foi Deus quem inspirou uma tal dedicação. Duas coisas pode ter certeza: que aprovo a vocação dessa senhorita à vida religiosa e a fundação desta congregação, que há de se estender rapidamente pela Igreja; está aí uma obra que Nosso Senhor pede há muito tempo”

A respeito do noviciado, disse o Cura d’Ars:

“Poucas para começar, mas bem escolhidas e de boa semente…”

O Pe. Olivant poderia mais tarde dizer das fundadoras: é um punhado de almas de elite.

Qual o fim do Instituto nas obras? Foi ainda o Cura d’Ars quem o inspirou: trabalhar pelas almas do purgatório, dedicando-se às obras de caridade.

“Realizareis, disse ele às fundadoras, realizareis a plenitude do espírito de Jesus Cristo, aliviando ao mesmo tempo os seus membros sofredores na terra e no purgatório”

Em 19 de Janeiro de 1856, Eugênia Smet chegou a Paris e se retirou com algumas companheiras, suscitadas por Deus, numa residência modesta. Três dias depois foi procurar o Arcebispo Mons. Sibour, que a recebeu com muito carinho e prometeu fazer tudo pela obra. Em Junho do mesmo ano estava a Congregação estabelecida. Vieram muitas provações.

Em pouco tempo a morte do Arcebispo e do Santo Cura d’Ars. Não obstante, a obra prosperou. Em 27 de Fevereiro de 1871, Pio IX deu o Breve de aprovação e Leão XIII, em 1878, aprovou as Constituições. As Irmãzinhas do Purgatório abriram casas em outras nações e foram até para a China realizar o seu programa: glorificar a Deus socorrendo as almas do purgatório, aliviando todas as misérias humanas.

Madre Maria da Providência foi o nome da senhorita Smet em religião.

Foi admirável esta santa criatura! Passou dolorosas provações, mas tudo venceu heroicamente. O Cura d’Ars lhe havia profetizado muitas cruzes:

“Vossas cruzes são flores que hão de dar muitos frutos. Só vós haveis de saber um dia quanto sofrimento vos há de custar para firmar vossa obra. Porém se Deus está convosco, quem será contra vós?”

A profecia se realizou.

“A Igreja padecente deve ter mártires neste mundo, dizia Madre Maria da Providência”

Dizia ela também, gemendo de dor na doença:

“Amar sofrendo e sofrer amando para vos dar almas, ó meu Jesus!”

É preciso sofrer para pagar tantas graças!

No Instituto das Irmãzinhas do Purgatório duas devoções se cultivam com amor: a do Sagrado Coração de Jesus e da Providência Divina. A piedade e devoção a Maria Santíssima é tudo na obra sob a invocação de Nossa Senhora da Divina Providência. Cada dia e a cada hora hão de repetir as Irmãs:

“Meu Deus, nós vos oferecemos pelas almas do purgatório todos os atos de amor pelos quais o Sagrado Coração de Jesus vos glorificou nesta mesma hora, quando estava na terra”

Não é uma bela invocação que podemos também adotar?

Rezar, sofrer, trabalhar! Era o lema da Madre Maria da Providência, fundadora das Irmãzinhas do Purgatório. Seja o nosso lema: rezar, sofrer e trabalhar pelas almas do purgatório! — (Vie de la R, M. Marie de la Providence).

Referências:
(1) Cit. Rousic — “Le Purgatoire”.

Voltar para o Índice do livro Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! de Mons. Ascânio Brandão e não esqueça de rezar a Ladainha pelas Almas do Purgatório

(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 219-228)

As Aparições de Almas do Purgatório - Que são as Aparições? Meditação para o dia 27 de Novembro

 


Que são as Aparições?

Meditação para o dia 27 de Novembro

Contam-se fatos prodigiosos e muitas aparições de almas do purgatório. Isto poderia talvez impressionar a alguns e julgarem que podemos desejar ou procurar, com certa curiosidade, indagar a sorte dos mortos ou facilmente ter comunicação com as almas do purgatório. Quanta ilusão perigosa e quanta superstição e crendice em torno disto! É mister discernirmos bem as verdadeiras das falsas aparições, e mostrarmos o pensamento da Igreja e dos Santos Doutores para que se evitem confusões e ilusões numa matéria tão grave e delicada, porque tão sujeita a enganos e erros.

Que é uma aparição? É uma manifestação do outro mundo, de alguém que nos vem dizer o que lá se passa. Podemos acreditar nas aparições?

Há dois extremos igualmente prejudiciais. Um dos que facilmente aceitam toda sorte de aparições sem exame e não têm a prudência de estudar e esperar a opinião de pessoas criteriosas, teólogos ou autoridades eclesiásticas e superiores, que possam discernir com segurança a verdade de tais aparições. É uma leviandade. Assim o diz a Escritura: “Qui cito credit, levis est corde” (1), quem facilmente em tudo crê, é leviano de coração, é um espírito leviano. Todavia, rejeitar sistematicamente e obstinadamente toda aparição, todos os fatos sobrenaturais, mesmo que tenham os sinais de verdadeiros, é prova de muito ceticismo, de orgulho, e pode levar à infidelidade a graça, como insinua a Escritura: “Qui incredulus est infideliter agit” (2), quem é duro em acreditar, procede contra a piedade.

É mister um equilíbrio neste caso entre os dois extremos. Uma alma verdadeiramente humilde e obediente nunca poderá se enganar. Outra questão é se as almas do outro mundo podem se comunicar com os vivos. Podem voltar à terra quando queiram ou quando desejem os vivos? Respondemos sem hesitar, com a boa doutrina da Igreja e dos teólogos: — não e não! Isto só se dá por uma especialíssima permissão de Deus, raras vezes, e por milagre, para ensinamento e confirmação da imortalidade da alma, para lição dos vivos ou para pedir socorro e sufrágios.

Desde que nossa alma se separou do corpo pela morte, não tem mais órgãos para se comunicar com os homens, é puro espírito, e só por milagre se pode tornar sensível. E demais, quando a alma deixou o corpo, já foi entregue à Divina Justiça, e está no lugar que mereceu: o céu, o inferno ou o purgatório. Não pode, sem milagre, entrar em comunicação com os homens. Este milagre das aparições nós os encontramos na Sagrada Escritura. Samuel apareceu à Pitonisa de Endor e repreendeu a Saul porque havia perturbado o repouso dos mortos. Mostrou o castigo que lhe estava reservado por esta curiosidade vã. Na morte de Nosso Senhor, conta São Mateus que os túmulos se abriram e muitos mortos apareceram e foram vistos em Jerusalém. Nas vidas dos Santos encontramos inúmeras aparições, e a Santa Igreja, ao elevar à honra dos altares os servos de Deus, submete a um rigoroso processo todos os fatos e prodígios que deles narraram, embora não se pronuncie sobre eles. Portanto, há verdadeiras aparições.

Verdadeiras e falsas Aparições

Há verdadeiras e falsas aparições. Estas muito mais frequentes do que aquelas. Como distingui-las? Há sinais pelos quais facilmente podemos nos livrar de enganos e afastarmos o perigo da ilusão diabólica. Devemos imitar sempre a reserva prudente da Santa Igreja nesta matéria. A Igreja não admite revelação alguma se não for devidamente comprovada, e ainda assim, não obriga os fiéis a nela acreditar. Ninguém é obrigado a acreditar numa revelação particular por mais provada que tenha sido. Não obstante, depois de bem provadas, seria temerário abusar com uma sistemática atitude de ceticismo, diante do que Santos e homens doutos e equilibrados aceitaram e provaram não haver ilusões.

Diz Bento XIV que podem os fiéis acreditar e podem ser publicadas as revelações particulares para edificação dos fiéis, contanto que sejam aprovadas pela autoridade eclesiástica. O Papa Urbano VIII manda que ao serem publicadas, declare o autor em nada querer se adiantar aos juízos da Igreja, e que tais fatos merecem apenas uma fé humana e não importam em definição da Santa Madre Igreja.

Eis as cautelas com que a Igreja cerca as aparições.

Há também regras seguras para discernimento das revelações segundo os bons autores de espiritualidade e os melhores teólogos. Umas se referem às pessoas que recebem as revelações, e outras à matéria das revelações e aos efeitos das mesmas. Quanto às pessoas é mister indagar dos dotes naturais. É um temperamento equilibrado? Não se trata de uma psico-neurose ou de histerismo? Nestes casos, quantas alucinações perigosas e difíceis de serem discernidas logo de começo! Quanto ao estado mental, é pessoa discreta, de juízo reto, ou de imaginação exaltada e de sensibilidade excessiva? É instruída ou ignorante? Onde aprendeu o que sabe? Não estaria com o espírito debilitado por jejuns ou por alguma enfermidade? Quanto a moral, é mister saber se trata-se de pessoa sincera ou acostumada a exagerar e a mentir. É um temperamento calmo, ou apaixonado e sem equilíbrio? A resposta a estas perguntas não dará, certamente, uma solução para a prova da existência ou não de uma revelação verdadeira, mas ajudará muito a julgar do valor do testemunho dos videntes.

Quanto à matéria das aparições é mister muita atenção para julgá-las. Segundo a doutrina unânime dos Doutores, nenhuma revelação pode contradizer o dogma e o que foi ensinado pelo Evangelho. Diz São Paulo:

“Ainda que um Anjo do céu vos pregue um evangelho diferente do que anunciamos, seja anátema” (3)

Deus não se contradiz. Nas falsas aparições há mentiras, erros teológicos graves, contradições, e muitas vezes coisas contrárias às leis da moral e da decência.

Muitas pessoas de imaginação muito viva tomam seus próprios pensamentos por visões e locuções interiores. Dizia Santa Teresa:

“Acontece com certas pessoas de tão fraca imaginação que se embebem de tal maneira na imaginação, que tudo o que pensam claramente lhes parece que estão vendo” (4)

Aparições das Almas do Purgatório

Depois de termos mostrado a verdadeira doutrina da Igreja sobre as revelações ou aparições, tratemos das aparições das santas almas. Podem elas aparecer aos homens? Sim, raramente e por permissão de Deus. É uma graça para quem recebeu a aparição e uma graça para a pobre alma, sobretudo quando Deus permite que ela obtenha socorros para se livrar das chamas expiadoras. Deus o permite para excitar a nossa fé na imortalidade da alma e para que compreendamos melhor a sorte das pobres almas e procuraremos sufragá-las com mais zelo e caridade. Como distinguir as verdadeiras das falsas aparições de almas do purgatório? Já demos as principais regras deste discernimento segundo a doutrina da Igreja e a teologia. Acrescentemos mais algumas. No século XVII o sábio Cardeal Bona criticou severamente a facilidade e leviandade com que acreditavam muitos em revelações sobrenaturais e deu algumas regras que podem nos esclarecer muitos na matéria. Vamos comentá-las:

1.º — ‘Toda aparição desejada ou provocada é suspeita’. Ninguém deve desejar ver nem conversar com os mortos, indagar a sorte dos defuntos, mesmo que o faça por motivo de caridade e para rezar por eles. Não se deve desejar aparição alguma de alma do purgatório. Seria temeridade e presunção.

2.º — Se a aparição revela coisas ocultas que seria melhor silenciar sobre elas, faltas alheias, ensina coisas contrárias ao dogma e ao Evangelho, tem horror à água benta, ao crucifixo etc., está provado que se trata do Demônio.

3.º — As almas do purgatório aparecem geralmente para solicitar orações, recomendar restituições, etc. E feito isto, não voltam mais, a não ser para agradecerem. Se uma aparição se torna importuna dia e noite, ameaça, perturba a paz de um homem ou de uma família ou comunidade, é sinal certo de demônio.

4.º — Ninguém deve aceitar serviços prestados pelas almas do purgatório que se vem colocar à nossa disposição, morar conosco, etc. É pura ilusão isto ou coisa diabólica.

5.º — Todos os bons teólogos místicos ensinam que as aparições verdadeiras logo de princípio perturbam e assustam, mas depois lançam a alma numa doce paz, aumenta a humildade, excita o amor de Deus e do próximo e produzem um grande desejo de perfeição. Quando alguém começa a se gabar das aparições, mostrar-se digno delas, perturbar-se em vão e encher-se de presunção, irritar quando os superiores não fazem caso das suas visões e desobedecerem, eis um sinal bem certo de engano.

6.º — É mister que as aparições sejam expostas singelamente a um bom diretor, sem exageros nem reticências, nem diminuição da verdade. E depois ficar pelo que ele decidir e obedecê-lo cegamente”

Com estas regras seguras dos bons teólogos e autores místicos, não haverá perigo de ilusão. Deus Nosso Senhor na sua misericórdia tem permitido muitas revelações das almas do purgatório. Parece mesmo que são mais numerosas do que qualquer outras. Quanta luz sobre o purgatório não nos deram, por exemplo, as revelações de uma Santa Catarina de Genova! Nesta matéria sejamos muito prudentes e criteriosos e não nos afastemos do pensamento da Santa Igreja e das normas que acima vão expostas.

Exemplo: O purgatório nas visões de uma mística canadense

Em 14 de Março de 1910 faleceu na cidade de Pointe Claire, no Canadá, uma mulher extraordinária, santa mãe de família, um modelo de esposa e cristã verdadeira, Madame Brault, Maria Luiza Richard. A publicação da vida extraordinária e maravilhosa desta grande mística, há bem pouco, causou sensação em todo mundo, tais os prodígios contados e provados desta mulher que se pode enfileirar ao lado de Ana Taigi e das grandes místicas da Igreja. Dotada de uma grande simplicidade, espírito bem equilibrado e sensato, de uma piedade muito provada e sincera, hoje está perfeitamente averiguado que não se tratava de nenhum espírito mistificador nem de alguma falsa visionária. Teólogos e prelados ilustres examinaram fatos, confessores doutos e esclarecidos depuseram como testemunhas fidedignas no exame dos fatos impressionantes da vida maravilhosa desta grande mística de nosso século. Madame Brault tinha contato com as almas do purgatório e como o Santo Cura d’Ars podia dar testemunho da sorte das pobres almas. Dizia ela chorando, num dia de Finados:

“Os egoístas da terra se esquecem dos mortos. Como deve ser cruel para as pobres almas do purgatório o abandono dos homens! Dizem que amam os pais e parentes defuntos! Que mentira! Nós que amamos a Deus devemos amar nossos amigos do purgatório todos os dias de nossa vida. Eu quisera ser capaz de sofrer sozinha tudo o que padecem as almas do purgatório para poder libertá-las!”

Madame Brault teve muitas visões das almas do purgatório. Elas lhe pediam orações, Missas e sacrifícios. As pessoas que ela via eram desconhecidas às vezes e fizeram inquéritos rigorosos de datas, lugares e circunstâncias, chegando-se à conclusão da impossibilidade de qualquer mistificação. Eram impressionantes as revelações desta mística. Em 1905, uma religiosa acompanhada de outra foi visitar Madame Brault.

— “Não quero visitar esta louca”, disse a Mestra de noviças

— “Ó, minha Irmã, não diga assim! Madame é tão equilibrada e santa, tão discreta e humilde!”

Afinal tiveram uma entrevista com ela. Foi uma palestra amável e singela. Depois de alguns instante, Madame Brault chamou a Irmã e lhe disse:

— “Minha Irmã, a senhora não reza mais por seus parentes falecidos?”

— Meus parentes morreram há muito tempo e eram muito bons, devem estar no céu

— Sim, vosso pai e vossa mãe estão no céu. Um irmão porém morreu repentinamente em tal lugar e em tal data, e um sobrinho. E a senhora nunca mais rezou por eles. É preciso dizer ao sobrinho que vai se ordenar, que diga logo algumas missas por seu tio.

A Religiosa pasmou diante do que ouvira. Era impossível que Madame tivesse tido informações tão fiéis de seus parentes. Outra Irmã perdera o pai em 31 de Julho de 1903. Madame Brault lhe disse:

“Tenha confiança, Irmã, seu pai está no céu. Tinha ele uma grande devoção à Santíssima Virgem, gostava de rezar o rosário e morreu num sábado. Naquele sábado mesmo Nossa Senhora o fez entrar no céu”

Ela nunca ouvira falar deste homem, e não lhe era possível conhecer tal pessoa.

“Sejamos libertadores das almas do purgatório, repetia ela depois dos êxtases. Nosso Senhor nos deu as chaves da prisão do purgatório: a oração, o sofrimento, o sacrifício…”

No dia 21 de Dezembro de 1907, na relação que foi obrigada a fazer por escrito ao seu Diretor espiritual, viu ela um Padre no purgatório. Estava revestido de ornamentos sacerdotais e com um cálice todo em fogo. As mãos pareciam roídas e apareciam até os ossos. Úlceras por todo o corpo e torturas horríveis. À vista deste tormento, Madame Brault gemeu:

“Ó meu Bem Amado, meu Jesus, quero sofrer por esta alma; por que não me dais a graça de sofrer mais para aliviá-la? Depois vi Jesus se aproximar do Padre e derramar sobre aquelas chagas seu precioso Sangue. As chagas se cicatrizaram e as cadeias do pobre sacerdote caíram. Depois meu Jesus me disse que libertaria aquela alma pelas minhas orações. A face do padre ficou limpa das úlceras, uma bela estola roxa lhe adornava o pescoço e os paramentos me pareceram mais brilhantes e belos. Jesus me disse que libertaria a alma do sacerdote”

No dia de Finados de 1908, foi ao cemitério rezar pelos mortos e viu, Madame Brault, muitos mortos que lhe apareciam saindo das sepulturas em queixas doridas de cortar o coração: Estamos esquecidos de nossos parentes! Não rezam por nós! Nossos amigos nos esqueceram, nos abandonaram!!!

Fez ela uma Via Sacra pelos defuntos e se retirou muito amargurada, pelo esquecimento dos pobres mortos.

“Compreendo, dizia ela ao confessor, o martírio das pobres almas nas chamas do purgatório!”

Viu um padre conhecido no purgatório que lhe disse:

“Eu sofro muito por ter rezado tantas vezes meu breviário quase sem pensar que falava com Deus e por rotina, e também pela minha pouca preparação e ação de graças muito rápida depois da Santa Missa”

Enfim, seria longo narrar as impressionantes visões do purgatório de Madame Brault, a grande mística de nossos dias. A biografia desta mulher extraordinária foi publicada pelo Pe. Louis Bouhier, S. S., antigo pároco da vidente. É a obra “Une mystique canadienne — Vie extraordinaire de Madame Brault” — Edition Beauchemin, 1941.

Referências:

(1) Eccl 14, 4
(2) Is 21, 2
(3) Gl 1, 8
(4) Castillo — Morados sextas — Cap. IX, 9.

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(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 209-218)


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