Jesus, antes de conceder a uma alma uma união íntima com Ele, a purifica pela provação, e quanto maiores desígnios tem sobre esta alma, tanto mais a prova é maior.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
sábado, 23 de fevereiro de 2019
Os Sofrimentos das almas no purgatório

O que os Santos Doutores ensinam acerca dos sofrimentos do purgatório nos penetram de tema com paixão pelas almas.
S. Boaventura ensina que nossos maiores sofrimentos ficam muito aquém dos que ali se padecem. São Tomás diz que o menor dos seus sofrimentos ultrapassam os maiores tormentos que possamos suportar. Confirmam Santo Ambrósio e São João Crisóstomo que todos os tormentos que o furor dos perseguidores e dos demônios inventaram contra os mártires, jamais atingirão a intensidade dos que padecem em tal lugar de expiação.
O fogo! Estremecemos só de lhe ouvir o nome. E estar-se no fogo inteiramente, num fogo ativo, penetrante, que vai até o início do ser – que cruel suplício.
Aquele fogo, diz S. Antônio, é de tal maneira rigoroso que comparado com o que conhecemos na terra, este se afigura como pintado num painel.
Após uma visão do purgatório, exclama Santa Catarina de Gênova. “Que coisa Terrível! Confesso que nada posso dizer e nem conceber que se aproxime sequer da realidade. As penas que lá se padecem são tão dolorosas como as penas do inferno”.
É pior que todos os martírios, 0 Pe. Faber disse. Creio que as penas do purgatório são mais terríveis e insuportáveis que todos os males desta vida, diz São Gregório Magno.
S. Nicolau Tolentino teve uma visão de um imenso vale onde multidões de almas se retorciam de dor num braseiro imenso e gemiam de cortar o coração. Ao perceberem o Santo, bradavam suplicantes, estendendo os braços e pedindo misericórdia e socorro. Padre Nicolau, tem piedade de nós! Se celebrares a Santa Missa por nós, quase todas seremos libertadas de nossos dolorosos tormentos. São Nicolau celebrou sete missas em sufrágio dessas almas. Durante a última missa apareceu-Ihe uma multidão de almas resplandecentes de glória que subiam ao céu.
A Duração das Penas no purgatório
Assegura-nos S. Vicente Ferrer, que há almas que ficaram no purgatório um ano inteiro por um só pecado. Santa Francisca afirma que a maioria das almas do purgatório lá sofrem de trinta a quarenta anos. Muitos santos viram almas destinadas a sofrer no purgatório até o fim do mundo.
As almas simples e humildes, sobretudo as que muito sofreram neste mundo com paciência e se conformaram perfeitamente com a vontade de Deus, podem ter um purgatório muitíssimo abreviado, às vezes horas…
S. Paulo da Cruz, estando em oração, ouviu que batiam à porta com força. – Que queres de mim, pergunta.
- Quanto sofro. Quanto sofro, meu Deus! Sou a alma daquele padre falecido. Há tanto tempo estou num oceano de fogo, há tanto tempo!… Parecem mil anos!
São Paulo da Cruz o conheceu logo e respondeu admirado: Meu padre, faz tão pouco tempo que faleceu e já me falas em mil anos. O pobre padre pediu sufrágios e desapareceu.
São Paulo da Cruz, comovido, orou muito por ele e no dia seguinte celebrou a Missa pela defunto. Viu-o, então, entrar triunfante no céu, na hora da comunhão.
O Papa Inocêncio III apareceu a Santa Lutgarga dizendo que deveria ficar no purgatório até o fim do mundo por algumas faltas no governo da Igreja.
Nosso Senhor mostrou-lhe quatro padres que estavam lá já mais de cinquenta anos, por administrarem mal os Ss. Sacramentos.
Santa Verônica Juliani fala de uma irmã que deveria ali permanecer tantos anos quantos passou neste mundo.
Ao padre Scoof, de Louvain, foi revelado que um banqueiro de Antuérpia estava no purgatório há mais de duzentos anos porque tinham rezado pouco por ele.
Toma, pois, a resolução de jamais deixar passar um dia sequer sem rezar pelos parentes falecidos. Tem piedade daqueles que nos deixaram e que agora estão sofrendo. Pensa nos membros de tua família que faleceram e que tens deixado em tão lamentável e total esquecimento.
A Necessidade de Ajudar as Almas do Purgatório
Impotência para se acudirem
O estado das almas do purgatório é de absoluta impotência. Parecem-se com o paralítico estendido à beira da fonte de Siloé, que não podia fazer o menor movimento para ter alívio. Vêem suas companheiras de infortúnio, aliviados de tempos a tempos recebendo os frutos de uma comunhão, o valor de uma missa, e elas ficam esquecidas.
Vós que viveis na terra e tão facilmente vos comoveis ante o sofrimento e a idéia do abandono, ouvi as almas do purgatório pedindo-vos uma migalha desse pão que Deus vos dá com tanta abundância: uma pequena parte de vossas orações, boas obras, e sofrimentos! Como são justas as queixas que um religioso ouviu desses pobres corações abandonados.
“Ó irmãos! Ó amigos! Pois que há tanto tempo vos aguardamos, e vós não vindes; vos chamamos e não respondeis; sofremos tormentos que não tem iguais, e não vos compadeceis; gememos e não consolais”.
Ai, dizia uma alma, ignora-se no mundo que o fogo do purgatório é semelhante ao do inferno. Se possível fosse fazer uma visita a essas mansões de dor, não haveria na terra quem quisesse cometer um só pecado venial, visto o rigor com que é punido.
=================
São Francisco Xavier percorria, à noite, as ruas da cidade, convocando com uma campainha o povo a orar pelas almas.
Outrora muitas almas saíam do purgatório graças às orações dos fiéis, mas agora poucas saem de lá. Poucos se preocupam com elas.
A Santa Missa Salva Almas
A Santa Missa é o sacrifício de expiação por excelência. É a renovação do Calvário, que salvou o gênero humano. Na Missa colocou a Igreja a memória dos mortos, e isso no momento mais solene, em que a divina Vítima está presente sobre o altar. É a melhor, a mais eficaz, a mais rápida maneira de aliviar e libertar as almas dos nossos queridos mortos.
Certa feita, celebrando a Missa em uma igreja de Roma, São Bernardo caiu em êxtase e viu uma escada que ia da terra ao céu, pela qual os anjos conduziam as almas libertadas do purgatório em virtude do santo sacrifício. Nessa Igreja – Santa Maria Escada do Céu – há um quadro que representa essa visão.
Não há maior socorro às almas, diz Guerranger, que a Santa Missa: A Missa é a esperança e a riqueza das almas.
Podemos duvidar do valor de nossas orações; mas da eficácia do Santo Sacrifício, no qual se oferece o Sangue de Jesus pelas almas, que dúvida podemos ter?
Ao Beato João D’Avila, nos últimos instantes de vida, Perguntaram o que mais desejaria depois da morte. Missas! Missas!
Ao Beato Henrique Suzo apareceu depois da morte um amigo íntimo gemendo de dor e a se queixar: “Ai, já te esqueceste de mim”.
- Não, meu amigo, responde Henrique, não cesso de rezar pela tua alma, desde que morreste.
- Ó, mas isto não me basta, não basta! Falta-me para apagar as chamas que me abrasam o Sangue de Jesus Cristo.
Henrique mandou celebrar inúmeras Missas pelo amigo. Este lhe apareceu então já glorificado e lhe diz: “Meu querido amigo, mil vezes agradecido. Graças ao Sangue de Jesus Cristo Salvador, estou livre das chamas expiadoras. Subo ao céu e lá nunca te esquecerei”.
A cada missa, diz São Jerônimo, saem muitas almas do purgatório. E não sofrem tormento algum durante a Missa que lhes é aplicadas.
Seu Sacrifício também é uma Oração
Nossas Orações: Um meio fácil
Um movimento do coração, um olhar para o céu em sua lembrança, um suspiro de piedade, um pensamento de compaixão, os nomes de Jesus, Maria e José pronunciados com devoção em favor das almas, diminuem certamente suas penas.
Custa-nos muito pouco sufragar os defuntos. Somos obrigados a certas orações, a assistir Missas aos domingos, e aproximar-nos dos sacramentos, a perdoar nossos inimigos. Tudo isso é aceito por Deus e serve para alívio delas.
E os males do dia a dia? A fadiga do trabalho, as doenças, as humilhações, a tarefa de suportar os que nos rodeiam, os problemas, tudo isto pode servir para expiar os pecados das almas. E de que sofrimentos serão aliviados os finados!
Dizia S. Francisco de Sales: Vós que chorais inconsoláveis a perda de vossos entes queridos, eu não vos proíbo de chorar, não. Mas, procurai adoçar vossas lágrimas com o suave bálsamo da oração, que pode concorrer para as aliviar”.
A oração de Marta e Maria leva Jesus a ressuscitar Lázaro. Nossas preces pelos defuntos hão de tirar as pobres almas daquele estado em que se encontram.
Poupai vossas lágrimas, dizia São João Crisóstomo, pelos defuntos e dai-Ihes mais orações. E Santo Ambrósio conclui: “É preciso assisti-Ias com orações do que chorá-las”.
Nosso Senhor fez ouvir estas palavras a Santa Gertrudes: Muitíssimo grata me é a oração pelas almas do purgatório, porque por ela tenho ocasião de libertá-Ias das suas penas e introduzí-las no glória eterna.
Os testemunhos encontrados nas vidas dos Santos provam claramente as vantagens da oração que se fazem pelas defuntos! (S. João Damasceno)
Santa Teresa dizia que tudo obtinha por intermédio das almas dos fiéis.
Quando quero obter com certeza urna graça, diz Santa Catarina de Bolonha, recorro a essas almas que sofrem, a fim de que apresentem a Deus o meu pedido, e 1~ me é concedida a graça.
Nossos Sacrifícios
O sofrimento junto com a prece tem uma eficácia extraordinária para obter de Deus todas as graças. Aliviemos as almas do purgatório, diz São João Crisóstomo, com tudo que nos mortifica. Deus aplica aos mortos os méritos dos vivos.
Por aqueles que amais, sacrificai o que tendes de mais caro. Sacrificai-vos a vós mesmos. Ah, vejo essas almas felizes elevarem-se para o céu, nas asas de nossos sacrifícios, de nossas austeridades e sofrimentos, é o que diz o padre Belioux.
=================
O padre Jacques Monfort, S. J. escreveu um livro sobre a caridade para com as almas, e fê-lo imprimir em Colônia, por Guilherme Freysisen. tempos depois, ele recebeu uma carta do editor na qual narrava que seu filho e sua esposa tinham adoecido gravemente. Os médicos já tinham perdido as esperanças, e pensavam em funerais. Fui à Igreja e prometi distribuir cem exemplares do citado livro entre os padres a fim de lhes lembrar quanto se devem interessar pelos falecidos. No mesmo dia os doentes tiveram melhoras acentuadas e poucos dias depois estavam perfeitamente curados e tão sãos que o acompanharam à Igreja para agradecer a Deus tanta misericórdia.
Promete pois, em tuas dificuldades, propagar a devoção às santas almas e elas saberão ser gratas e o ajudarão.
A Gratidão das Almas
A ingratidão não pode existir no purgatório. Aquelas benditas almas nos hão de proteger e socorrer sempre.
O Cardeal Barônio conta que uma pessoa devota das almas foi terrivelmente tentada na hora da morte. Mas eis que uma multidão de pessoas veio em seu auxílio. Logo ficou livre de toda perturbação e perguntou: – Que multidão é esta que entrou aqui e na mesma hora senti alívio e fui socorrido pelo céu?
=================
O que fizerdes ao mínimo dos meus é a mim que o fazeis, diz o Senhor. Sereis medidos com a mesma medida que houverdes usado para com os outros. Deus é muito justo para deixar uma só ação sem recompensa e, recompensando como Deus, dá mais do que lhe deu.
Tudo o que damos por caridade, diz Santo Ambrósio, às almas do purgatório, converte-se em graças para nós e, após a morte, encontramos o seu valor centuplicado.
O purgatório é um banco espiritual em que podemos depositar quotidianamente nossas boas obras; e aí estão em seguro e se multiplicam; e quando estamos necessitados, daí vêm como viria o rendimento de um dinheiro depositado, a luz, a força, o auxílio que carecemos. Sejamos generosos; muito generosos.
Vantagens
Constituímos no céu um representante nosso que em nosso nome adora, louva e glorifica o Senhor.
Constituímos protetores nossos as almas por quem oramos, são Santas, é o que diz Suarez, essas almas caras a Deus. A caridade leva-as a nos amar… e intercederão por nós sem cessar.
As Almas Esperam por sua Ajuda
Como são esquecidos os mortos!
A Igreja, querendo que não nos esqueçamos das almas, consagrou um dia inteiro todos os anos à oração pelos finados. Determinou que em todas as missas houvesse uma recomendação e um momento especial pelos mortos. Ela aprova, sustenta e estimula a caridade pelos falecidos.
Como são esquecidos os mortos! Exclamava santo Agostinho! E no entanto acrescenta S. Francisco de Sales, em vida eles nos amavam tanto.
Nos funerais: lágrimas, soluços, flores. Depois, um túmulo e o esquecimento. Morreu… acabou-se!
Se cremos na vida eterna, cremos no purgatório. E se cremos no purgatório, oremos pelos mortos. O purgatório é terrível e bem longo para algumas almas.
S. Francisco de Sales tinha medo de seus admiradores. Essas pessoas, imaginando que depois da minha morte fui logo direto para o céu, me farão sofrer no purgatório.
Santa Tereza pedia: apelo amor de Deus, eu peço a cada pessoa uma Ave-Maria, a fim de Que me ajude a sair do purgatório e apresse a hora em que hei de gozar a vista de Jesus Senhor Nosso”.
O grande Frederico Ozanan, deixou estas linhas: “Não vos deixes levar por aqueles que vos disserem: ele está no céu! Rezai sempre por aquele que muito vos ama, mas que muito pecou. Com o auxílio de vossas orações eu deixarei a terra com menos temor” .Santo Agostinho pede orações pelas almas de Mônica, sua mãe, e todos os leitores de seus livros.
O Concílio de Trento, em 1563, ensinou que o purgatório existe e que as almas aí retidas podem ser ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e sobretudo pelo santo sacrifício do altar.
Entrar no céu e participar da glória de Deus é o anseio de cada cristão. No entanto, para que isso aconteça é preciso que a pessoa esteja totalmente purificada de seus pecados e pronta para amar a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e com todo o seu entendimento.
Para a expiação dos pecados existe o Purgatório. O Concílio de Trento, em sessão datada de 3 e 4 de dezembro de 1563, emitiu o seguinte decreto:
a) Já que a Igreja católica, instruída pelo Espírito Santo, a partir das sagradas Escrituras e da antiga tradição dos Padres, nos sagrados concílios e mais recentemente neste Sínodo ecumênico, ensinou que o purgatório existe e que as almas aí retidas podem ser ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e sobretudo pelo santo sacrifício do altar, o santo Sínodo prescreve aos bispos que se empenhem diligentemente para que a sã doutrina sobre o purgatório, transmitida pelos santos Padres e pelos sagrados Concílios, seja acreditada, mantida , ensinada e pregada por toda parte.[1]
Para rezar pelas almas do Purgatório, o fiel deve exercitar três virtudes: a fé, a caridade e a justiça. Quanto a fé é preciso crer naquilo que a Igreja ensina. Como vemos acima, o Purgatório existe e ela afirma que, para ele “vão as almas das pessoas que morreram em estado de graça, mas ainda não satisfizeram completamente por seus pecados e penas temporais”.[2]
Ora, a maior parte das pessoas vai para o Purgatório, isso é inegável, pois são pouquíssimas as que chegam a tão alto grau de santidade ainda nesta vida ou aquelas que, na hora da morte, receberam indulgência plenária.
Contudo, é possível ajudar as almas que, embora salvas, devem padecer suas penas. Isso pode se dar através da oração, penitência e obras de caridade, já que essas almas nada podem fazer por si mesmas e contam exclusivamente com a ajuda dos que estão ainda nesta vida. E o maior auxílio que se pode prestar a elas é a Santa Missa. O mesmo Concílio de Trento afirma em seu Cânon 3:
Se alguém disser que o sacrifício da Missa só e de louvor e ação de graças, ou mera comemoração do sacrifício realizado na cruz, porém não sacrifício propiciatório; ou que só aproveita a quem o recebe e não se deve oferecer pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades: seja anátema.
Antigamente havia o piedoso costume de se terminar a lista de intenções da Missa com um pedido pelas almas padecentes. Infelizmente esse gesto caiu em desuso e seria salutar recuperá-lo. Trata-se de um gesto de caridade para com aqueles que estão impossibilitados.
E a caridade é a segunda virtude a ser exercitada. Ela consiste em amar. Amas estas pessoas que são as mais necessitadas, pois nada podem fazer, estão num estado de total passividade, completamente dependentes da caridade dos que estão nesta vida. De nada adiantar rezar para aquelas almas que estão no Inferno, sua condição é eterna; nem para aquelas que já estão no Céu, pois são elas que intercedem pelos vivos. O dever de caridade de cada um é, portanto, pedir por aqueles que padecem suas penas no Purgatório.
Nossa Senhora, em Fátima, ensinou a rezar do seguinte modo: “Ó meu bom Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno, levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente as que mais precisarem”. E as que mais precisam são justamente as que estão no Purgatório.
A terceira virtude que deve ser exercitada é a Justiça. Ela possui dois aspectos: o primeiro é o da piedade para com os antepassados. Existe uma obrigação filial em se rezar pela ascendência. Deve-se a própria vida a cada um deles.
O segundo aspecto é por causa da justiça em seu sentido estrito, ou seja, quantas pessoas não estão no Purgatório padecendo por nossa culpa? Os maus exemplos, a cumplicidade no pecado, os maus conselhos; quantas pessoas foram levadas ao pecado por nossa causa e hoje, falecidas, estão pagando no Purgatório e se purificando para ver a Deus por nossa culpa? Portanto, é obrigação de justiça rezar por elas.
Assim, urge exercitar as três virtudes, recuperando a prática de piedade que a Igreja acalenta a tantos séculos que é rezar pelos falecidos.
Fonte: Facebook
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
O Purgatório - Parte I

O Purgatório ocupa um importante lugar em nossa santa religião. Forma uma das principais partes da obra de Jesus Cristo e tem um papel essencial na economia da salvação do homem. Lembramos-nos de que a Santa Igreja de Deus considerada como um todo, está composta de três partes: a Igreja Militante, a Igreja Triunfante e a Igreja Padecente ou Purgatório. Essa tríplice Igreja constitui o corpo místico de Cristo, e as almas do purgatório não são menos seus membros que os fiéis , na terra, e os eleitos, no céu.
No evangelho, a Igreja é ordinariamente chamada Reino do Céu. Assim, o purgatório, tanto quanto as igrejas celestiais e terrenas, é uma província deste vasto reino. As três igrejas irmãs tem incessantes relações entre si e uma contínua comunicação, à qual chamamos comunhão dos santos. Essas relações não tem outro objetivo senão o de conduzir as almas para a glória eterna, termo final para o qual todos os eleitos tendem. As três igrejas se assistem mutuamente para povoar o céu, que é a cidade permanente das almas, a gloriosa Jerusalém.
https://jusac.wordpress.com/2011/03/28/serie-purgatorio-parte-i/
Purgatório

Desde os primórdios a Igreja, assistida pelo Espírito Santo (cf. Mt 28,20; Jo 14,15.25; 16,12´13), acredita na purificação das almas após a morte, e chama este estado, não lugar, de Purgatório.
Ao nos ensinar sobre esta matéria, diz o nosso Catecismo:
“Aqueles que morrem na graça e na amizade de Deus, mas imperfeitamente purificados, estão certos da sua salvação eterna, todavia sofrem uma purificação após a morte, afim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu” (CIC, §1030).
Logo, as almas do Purgatório “estão certas da sua salvação eterna”, e isto lhes dá grande paz e alegria.
Falando sobre isso, disse o Papa João Paulo II:
“Mesmo que a alma tenha de sujeitar-se, naquela passagem para o Céu, à purificação das últimas escórias, mediante o Purgatório, ela já está cheia de luz, de certeza, de alegria, porque sabe que pertence para sempre ao seu Deus.” (Alocução de 3 de julho de 1991; LR n. 27 de 7/7/91)
O Catecismo da Igreja ensina que:
“A Igreja chama de purgatório esta purificação final dos eleitos, purificação esta que é totalmente diversa da punição dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório principalmente nos Concílios de Florença (1438-1445) e de Trento (1545-1563)” (§ 1031).
“Este ensinamento baseia-se também sobre a prática da oração pelos defundos de que já fala a Escritura Sagrada: Eis porque Judas Macabeus mandou oferecer este sacrifício expiatório em prol dos mortos, a fim de que fossem purificados de seu pecado (2 Mac 12, 46). Desde os primeiros tempos a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em favor dos mesmos, particularmente o sacrifício eucarístico, a fim de que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos”.
Devemos notar que o ensinamento sobre o Purgatório tem raízes já na crença dos próprios judeus, cerca de 200 anos antes de Cristo, quando ocorreu o episódio de Judas Macabeus. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas alguns objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei de Moisés. Então Judas Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados. O autor sagrado, inspirado pelo Espírito Santo, louva a ação de Judas:
“Se ele não esperasse que os mortos que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerasse que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormeceram piedosamente, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis porque ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, afim de que fossem absolvidos do seu pecado”. (2 Mac 12,44s)
Neste caso, vemos pessoas que morreram na amizade de Deus, mas com uma incoerência, que não foi a negação da fé, já que estavam combatendo no exército do povo de Deus contra os inimigos da fé.
Todo homem foi criado para participar da felicidade plena de Deus (cf. CIC, 1), e gozar de sua visão face-a-face. Mas, como Deus é “Três vezes Santo”, como disse o Papa Paulo VI, e como viu o profeta Isaías (Is 6,8), não pode entrar em comunhão perfeita com Ele quem ainda tem resquícios de pecado na alma. A Carta aos Hebreus diz que: “sem a santidade ninguém pode ver a Deus” (Hb 12, 14). Então, a misericórdia de Deus dá-nos a oportunidade de purificação mesmo após a morte. Entenda, então, que o Purgatório, longe de ser castigo de Deus, é graça da sua misericórdia paterna.
O ser humano carrega consigo uma certa desordem interior, que deveria extirpar nesta vida; mas quando não consegue, isto leva-o a cair novamente nas mesmas faltas. Ao confessar recebemos o perdão dos pecados; mas, infelizmente, para a maioria, a contrição ainda encontra resistência em seu íntimo, de modo que a desordem, a verdadeira raíz do pecado, não é totalmente extirpada. No purgatório essa desordem interior é totalmente destruída, e a alma chega à santidade perfeita, podendo entrar na comunhão plena com Deus, pois, com amor intenso a Ele, rejeita todo pecado.
Com base nos ensinamentos de São Paulo, a Igreja entendeu também a realidade do Purgatório. Em 1Cor 3,10, ele fala de pessoas que construíram sobre o fundamento que é Jesus Cristo, utilizando uns, material precioso, resistente ao fogo (ouro, prata, pedras preciosas) e, outros, materiais que não resistem ao fogo (palha, madeira). São todos fiéis a Cristo, mas uns com muito zelo e fervor, e outros com tibieza e relutância. E Paulo apresenta o juízo de Deus sob a imagem do fogo a provar as obras de cada um. Se a obra resistir, o seu autor “receberá uma recompensa”; mas, se não resistir, o seu autor “sofrerá detrimento”, isto é, uma pena; que não será a condenação; pois o texto diz explicitamente que o trabalhador “se salvará, mas como que através do fogo”, isto é, com sofrimentos.
O fogo neste texto tem sentido metafórico e representa o juízo de Deus (cf. Sl 78, 5; 88, 47; 96,3). O purgatório não é de fogo terreno, já que a alma, sendo espiritual, não pode ser atingida por esse fogo. No purgatório a alma vê com toda clareza a sua vida tíbia na terra, o seu amor insuficiente a Deus, e rejeita agora toda a incoerência a esse amor, vencendo assim as paixões que neste mundo se opuseram à vontade santa de Deus. Neste estado, a alma se arrepende até o extremo de suas negligências durante esta vida; e o amor a Deus extingue nela os afetos desregrados, de modo que ela se purifica. Desta forma, a alma sofre por ter sido negligente, e por atrasar assim, por culpa própria, o seu encontro definitivo com Deus. É um sofrimento nobre e espontâneo, inspirado pelo amor de Deus e horror ao pecado.
Pensamentos Consoladores sobre o Purgatório
O grande doutor da Igreja, São Francisco de Sales (1567-1655), tem um ensinamento maravilhoso sobre o purgatório. Ele ensinava, já na idade média, que “é preciso tirar mais consolação do que temor do pensamento do Purgatório”. Eis o que ele nos diz:
1 – As almas alí vivem uma contínua união com Deus.
2 – Estão perfeitamente conformadas com a vontade de Deus. Só querem o que Deus quer. Se lhes fosse aberto o Paraíso, prefeririam precipitar-se no inferno a apresentar-se manchadas diante de Deus.
3 – Purificam-se voluntariamente, amorosamente, porque assim o quer Deus.
4 – Querem permanecer na forma que agradar a Deus e por todo o tempo que for da vontade Dele.
5 – São invencíveis na prova e não podem ter um movimento sequer de impaciência, nem cometer qualquer imperfeição.
6 – Amam mais a Deus do que a si próprias, com amor simples, puro e desinteressado.
7 – São consoladas pelos anjos.
8 – Estão certas da sua salvação, com uma esperança inigualável.
9 – As suas amarguras são aliviadas por uma paz profunda.
10 – Se é infernal a dor que sofrem, a caridade derrama-lhes no coração inefável ternura, a caridade que é mais forte do que a morte e mais poderosa que o inferno.
11 – O Purgatório é um feliz estado, mais desejável que temível, porque as chamas que lá existem são chamas de amor.
Fonte: Extraído do livro O Breviário da Confiança, de Mons. Ascânio Brandão, 4a. ed. Editora Rosário, Curitiba, 1981
domingo, 10 de fevereiro de 2019
Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 8 (final)
Sofrimento espontâneo e alegre das almas purgantes.
Eu vejo que aquelas almas que estão no purgatório, estão em vista de duas operações distintas. A primeira é que padecem voluntariamente aquelas penas, parecendo-lhes ver que Deus teve para com elas grande misericórdia, pois assim é em consideração daquelas outras que mereceram, conhecendo a importância do pecado aos olhos de Deus. Porque se a sua bondade não temperasse a justiça com a misericórdia (satisfazendo-a com o precioso Sangue de Jesus Cristo), um só pecado mereceria mil infernos perpétuos.
Por isso essas almas padecem aquela pena tão voluntariamente que não queriam livrar-se dela nem em um momento, sabendo que é justíssimamente merecida, e bem ordenada que está, porque sua vontade se refere, não se queixam de Deus, sentindo-se como se estivesse na vida eterna.
A outra operação que eu dizia é aquele contentamento que sentem vendo a perfeita ordenação de Deus que com tanto amor e misericórdia opera com as almas.
Estes dois pontos de vista em um só instante os imprime Deus naquelas mentes, que como estão em graça, a entendem e compreendem assim, cada uma segundo a sua capacidade. E isto é que lhes dá tanto contentamento e alegria; o qual nunca lhes falta, mas vai crescendo cada vez mais conforme se vão aproximando de Deus.
Mas as almas não veem tudo isto em si mesmas, nem por si próprias, senão em Deus, no qual estão muito mais inteiradas ou adentradas que naquelas penas que padecem; pois deste entendimento divino fazem sua preferência com poder comparar com nada. Já que por pouca vista que se chegue a gozo que o homem nem sequer pode compreender; sem que isto queira dizer que este excesso reste na alma nenhuma centelha do gozo ou da pena.
A santa conclui a sua doutrina sobre as almas do purgatório, fazendo-lhes aplicação do que ela experimenta em sua alma.
Esta forma purgativa que eu vejo nas almas do purgatório, a sinto também em mim mesma, em meu entendimento; sobretudo, a contar desde uns dois anos. E cada dia que passa o sinto e vejo com maior claridade.
Vejo que a minha alma está em meu corpo como no purgatório, tão conforme e semelhante ao verdadeiro purgatório como pode ser na medida em que o corpo podia suportar sem morrer, padecer, que pouco a pouco, vira a chegar até a mote.
Vejo o meu espírito afastar-se de todas as coisas, inclusive aquelas espirituais com as que pudesse nutrir-se e reconfortar-se melhor: como lhe sucederia com a alegria, com a deleitação ou consolação, vejo, não obstante, que vai perdendo de tal modo o gosto de todas as coisas, sejam temporais ou espirituais, e que o sejam pela vontade, pelo entendimento ou a memória, que não posso dizer sequer que me contente de uma coisa mais que de outra.
Encontra-se assim meu ânimo interiormente tão assediado que, de todas aquelas coisas que refrigeram a vida espiritual ou corporal, se sente pouco a pouco e completamente vazio. Mas depois que as perdeu é quando conhece que eram coisas com as que pude aparentar-se e confortar-se, e, contudo, sucede que, ao mesmo tempo em que aborrece tanto que as deixa perder sem nenhum reparo.
E isto é assim porque o espírito tem aquele instinto de elevar-se sobre toda coisa impeditiva de sua perfeição, e com tanta crueldade manifesta, que quase chegaria a jogar-se no inferno para atingir seu desejo. E, por isso vai cortando de si todas aquelas coisas de que o homem interior se apacenta e conforma; e o assedia tão sutilmente com isto que não pode deixar passar sequer um mínimo de imperfeição que não seja ao ponto de aborrecê-la.
Enquanto se refere ao exterior, como o espírito não lhe corresponde nem sustenta, se acha o corpo todavia mais assediado, pois não encontra coisa sobre a terra que possa confortar-lhe em seu instinto humano.
Não lhe fica mais consolo que Deus, o qual, se opera tudo isto com tanto amor e com tão grande misericórdia, o faz para a satisfação de sua justiça.
O considerar tudo isto dá a alma grande paz e contentamento, sem que isto diminua por isso a pena nem o assédio; ainda que tampouco lhe possa aumentar tanto a pena como para que chegasse a alma a querer sair daquela ordenação divina.
Não sai a alma dessa prisão, nem tampouco o quer, nem tenta, tal que espera nela e que Deus faz todo aquilo que seja necessário. Mas contentamento está em que Deus esteja satisfeito e não caberia maior pena para mim que a de sair da ordenação divina, que vejo tão justa e plena de misericórdia.
Todas essas coisas que digo, as vejo e as toco; mas não posso encontrar palavras suficientes para expressá-las; para dizer com elas tudo o que quero.
Mas o que disse é o que sinto que há dentro de mim espiritualmente; e por isso o digo.
A prisão que parece que me encontro é o mundo, ao que o corpo me acorrenta. E a alma iluminada pela graça, é a que ao reconhecer a importância de encontrar-se assim retida ou atrasada por este impedimento para conseguir seu fim próprio em Deus, sofre com isso tanta pena, que sofre assim por causa, de sua própria delicadeza.
É que a alma também recebe de Deus, por graça, certa dignidade que a faz semelhante a Deus; pois assim é como Deus a faz consigo uma mesma coisa: por participação de sua bondade. E como é impossível que a Deus lhe suceda alguma pena, assim lhe sucede às almas quando a Ele se aproximam; e quanto mais se aproxima, tanto mais recebem e participam desta propriedade divina.
Por isso o retardamento em que se encontra causa a alma tão intolerável pena; porque a pena e o atraso a separam daquela propriedade que ela tem; que é a de sua própria natureza e que pela graça lhe é mostrada: pois o não poder alcançar a Deus sentindo-se capaz para Ele, lhe dá esta pena, que é tão grande como é sua estima mesma de Deus, já que esta estima é tanto maior quanto mais o conhece, e tanto mais consegue conhecê-lo quanto mais se acha sem pecado; pois o entendimento resulta, e então, mais terrível, ao recolher-se a alma em Deus que sem impedimento algum de erro conhece.
Do mesmo modo que o homem que prefere morrer do que ofender a Deus sente a morte e lhe causa sofrimento, mas a luz de Deus o incendeia de modo que chega a estimar mais aquela hora divina que a sua morte corporal, assim a alma, ao conhecer a ordenação divina, estima mais aquela ordenação que todos os tormentos interiores ou exteriores por terríveis que possam ser-lhe: e isto simplesmente porque Deus, que é o que faz tudo isso, excede a tudo o que se possa sentir ou imaginar.
E acontece que como Deus, por pouco que dê à alma, a ocupa tão por inteiro de si que já de outra coisa não pode preocupar-se sequer, com isto a alma perde toda outra propriedade sua, e já não vê nem fala, nem conhece dano nem pena que possam ser-lhes próprios. Pois tudo isto como foi dito, a alma o compreende no último momento, em um só instante, ao deixar esta vida.
Finalmente, e por conclusão, entendemos que Deus o faz perder ao homem tudo aquilo que só era seu pelo pecado e que o purgatório o purifica.
Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.
Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 7
As almas purgantes não podem merecer. De como está disposta a sua vontade a respeito das obras que se oferecem neste mundo para seu sufrágio. Se as almas do purgatório pudessem purgar-se por contrição, em um só instante pagariam toda a sua dívida; porque um fogoso ímpeto de contrição as arrebataria por inteiro. E sucederia isto assim, por aquele claro entendimento que têm, então, as almas da importância do que lhes impede e estorva, não deixando-as alcançar seu fim e o amor de Deus. Mas podeis estar certos que do pagamento que têm de dar aquelas almas, nem o mais mínimo se perdoa; porque assim foi estabelecido pela Justiça Divina. E isto, enquanto se refere a Deus; pois, pelo que se refere às almas , estas já não têm afeição própria e não podem ver outra coisa senão o que Deus quer; nem de outro modo podem querer, senão como foi assim estabelecido. E se alguma esmola se faz por elas neste mundo que diminua o tempo de sua pena, elas não podem voltar-se com afeto para olhá-la se não é tanto que aquela justíssima balança da vontade divina se pague com ele como a sua infinita vontade se faça: pois em tudo isto não podem fazer outra coisa que deixar a Deus fazer o que Ele queira. Porque se pudessem as almas voltar-se a olhar para aquelas esmolas que se lhes fazem, saindo-se desta divina vontade, seria este ato próprio seu, que as apartaria imediatamente da vista divina, o qual seria para elas tanto quanto um inferno. Por isso estão essas almas aquietadas, imóveis, entregues a tudo o que Deus lhe dá, tanto de prazer e contentamento como de pena, pois nunca mais podem voltar-se para si mesmas, já que de tal modo estão transformadas intimamente na vontade de Deus que só se contentam em todo com aquela ordenação santíssima sua. As almas querem a sua perfeita purificação. Se alguma alma pudesse apresentar-se à visão de Deus conservando nela, porém, algo, por muito pouco que fosse, de impureza que não houvesse purificado, se sentiria terrivelmente injuriada com isto, padecendo, então, por isso uma paixão e pena muito maior que a de dez purgatórios juntos. Porque aquela pura bondade e suma justiça não poderia suportá-la em sua presença, o que é inconsciência impossível por parte de Deus. Pois aquela alma que visse que Deus não está plenamente satisfeito com ela, porém, ainda que a faltasse um só abrir e fechar de olhos de purificação, lhe seria isto tão intolerável que para arrancar-se de si aquela miséria, se lançaria de boa vontade em mil infernos, se pudesse, antes que sentir-se diante da presença divina não purificada de tudo. Exortações e reprimendas aos vivos. E assim, alma bem-aventurada, vendo a essa luz divina todas essas coisas aqui ditas, digo: Tenho vontade de gritar, me dá vontade de lançar um grito tão forte que assuste com ele todos os homens que andam sobre a terra para dizer-lhes: Oh! Miseráveis! Porque os deixais levar por este mundo, desprezando aquela importante necessidade em que os encontrareis ao ponto de chegar a hora da morte sem que haja tomado para isto previsão alguma? Todos estais sob a esperança da misericórdia de Deus, a qual dizeis que é tão grandíssima; mas não vês que, precisamente por sê-lo tanto, por ser tanta bondade de Deus, se levantará contra vós no juízo, já que haveis vivido contra a vontade de um Senhor tão bom? Pois por esta bondade é porque deverias obrigar-te a cumprir totalmente a Sua vontade, não abandonando, pelo contrário, a esperança enquanto fazes o mal: porque sua justiça não pode faltar-nos tampouco, sendo necessário que de algum modo se satisfaça plenamente. Não te confies mais dizendo: eu me confessarei e obterei logo a indulgência plenária; e estarei, então, purificado de todos os meus pecados e assim poderei salvar-me. Pensa que aquela confissão e contrição que dizes, a qual é necessária para ganhar uma indulgência plenária, é coisa tão difícil de obter que se soubesse estremeceria de medo; pois estaria muito mais seguro de não tê-la que de podê-la conseguir.
Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 6
Ardente desejo que têm as almas de transformar-se em Deus e sabedoria de Deus ao ocultar-lhe suas imperfeições A alma foi criada com todas aquelas condições de bondade que lhe capacitam para alcançar a perfeição, vivendo é claro, como Deus teria ordenado, sem contaminar-se de mancha de pecado algum. Mas, ao contaminar-se pelo pecado original, perdeu a alma seus dons e suas graças, e ficando morta, não pode, então, ressuscitar senão com a vontade de Deus. E quando foi ressuscitada pelo Batismo, fica, porém, aquela má inclinação primeira que a empurra e conduz (se ela não lhe faz resistência) ao pecado atual, pelo qual se morre de novo. Deus, porém, volta, todavia, a ressuscitá-la por meio de outra graça especial, porque a alma ficou tão entorpecida que para para voltá-la de novo a seu primeiro estado, tal como foi criada por Deus, sem as quais nunca poderia retornar. Quando a alma se encontra em caminho de volta a aquele seu primeiro estado, tanto é o ardor que sente por dever-se transformar em Deus, que este é, então, seu purgatório. E não porque ela possa ver o purgatório como tal purgatório, senão porque aquele instinto de subir para Deus sentindo-se impedida para ele, é o que se lhe faz, deste modo, o purgatório. Mas é este último ato de amor que se opera, então, sem o homem: porque se encontra na alma tantas imperfeições ocultas, que se as visse, viveria a alma desesperada; e assim, neste último estado, se vão consumindo todas elas misteriosamente. Somente quando foram todas consumidas, Deus o mostra à alma; para que ela veja aquela operação divina que lhe causou o fogo de amor consumindo todas as imperfeições que havia sido consumida nela. Alegria e dor das almas purgantes Deveis saber que todo aquele que julga o homem de si mesmo como perfeição, diante de Deus é defeito. por isso todo aquele que faz do homem uma aparência de perfeição, tanto no que vê, como no que sente, ou no que entende, ou no que quer, e até no que recorda, se não reconhece que é de Deus e não todo seu, com todo ele se contamina e entorpece. Porque devendo ser todas aquelas obras perfeitas, é necessário que para sê-lo se operem em nós e sem nós, ou seja, sem nós como agentes principais delas; assim, deste modo, é necessário que a obra de Deus se faça por Deus sem que o homem a faça primeiro. Estas são aquelas obras que Deus faz na última atuação do amor puro e nítido; porque as faz por si só sem mérito nenhum nosso. E essas obras são tão penetrantes e inflamam tanto a alma, que o corpo, que está ao redor, parece consumir-se de tal modo como se estivesse dentro de um grande fogo: porque este fogo não lhe abandonará, então, jamais até a morte. É verdade que o amor de Deus assim refletido na alma (segundo o vejo) dá a alma um tão grande contentamento que não se pode sequer expressar; mas esta alegria das almas que estão no purgatório não lhes diminui nem uma centelha sequer da pena. Porque é aquele mesmo impedimento do amor o que lhe faz maior a sua pena; e tanto esta pena se vai aumentando nelas, conforme é maior a perfeição de amor de que Deus faz capaz. E assim, as almas do purgatório têm tão grande alegria como grandíssima pena, que uma coisa não impede a outra.
Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 5
O amor de Deus que atrai a si as almas santas e o impedimento que essas encontram no pecado, gera a pena do purgatório. Considero que há tão grande conformidade entre Deus e a alma, que quando a alma vê Deus naquela pureza em que a criara, a atrai de certo modo a si com tão ardente amor que bastaria para aniquilá-la se não fosse imortal. E faz a alma estar transformada tanto em seu Deus, que já não vê ser outra coisa senão Deus; o qual continuamente a vai atraindo e incendiando, não abandonando-a jamais, até havê-la conduzido a aquele ser seu de onde saiu; isto é aquela pura nitidez em que foi criada. Quando a alma, vendo-se a si mesma interiormente, se sente assim atraída com tão amoroso fogo para Deus, então por aquele calor mesmo do amor ardente a seu doce Senhor e Deus, que percebe em seu entendimento, toda ela se sente como se liquidar e fundir. E vendo depois a luz divina; e vendo nela como Deus não cessa nunca de atraí-la e conduzi-la amorosamente à inteireza de sua perfeição, com tanta e tão contínua previsão e cuidado; e que isto só por puro amor o faz; e vendo-se a alma pelo impedimento do pecado entorpecida para seguir aquela atração de Deus, aquela meta unitiva que Deus lhe oferece para atraí-la a si; e vendo também quanto lhe significa o estar, todavia, tão atrasada que não pode ver a luz divina, mostrando a ele aquele outro instinto da alma que quisera ser livre e sem impedimento algum para seguir aquela busca unitiva de Deus: digo, que o ver todas essas coisas juntas é o que gera nas almas a pena que sofrem no purgatório. E não é só isto a dizer que sinta sobre toda aquela pena que padecem por isso (ainda sendo, como é, grandíssima), porque o que sentem mais todavia é a oposição em que ainda se encontram contra a vontade de Deus, a qual veem já tão claramente inflamado de um forte e puro amor para elas. E este amor, com aquela meta unitiva que disse, age de maneira tão forte e tão contínua nas almas que parece como se não tivesse que fazer outra coisa mais que isso. Por isso a alma, vendo isto, se encontrasse outro purgatório mais terrível para poder arrancar de si de maneira mais rápida esse impedimento, em seguida se atiraria nele, movida pelo ímpeto daquele amor tão consequente entre Deus e a alma. Como Deus purifica as almas. Exemplo do ouro no crisol. Vejo também que procede daquele amor divino em direção a alma certos raios e centelhas de fogo tão penetrantes e tão fortes que parece que deviam aniquilar não somente o corpo, mas a alma mesma, se isto fosse possível. Estes raios têm dois efeitos: um, o de purificar; o outro, o de aniquilar ou consumir. Veja o ouro: quanto mais o fundes melhor se torna; e tanto se poderia fundir que se aniquilaria nele toda a impureza. Este efeito tem o fogo em todas as coisas naturais; mas a alma, como não se pode aniquilar e consumir em Deus, se aniquila e consome em si mesma; e quanto mais se purifica, tanto mais em si mesma se consome e aniquila para unir-se a Deus totalmente purificada. O ouro, quando se purifica até vinte e quatro quilates, não se consome mais, por mais fogo que se ponha nele, porque não pode consumir-se senão o que nele é imperfeição ou escória. Assim também faz o fogo divino com a alma. Deus mantém o fogo até que se consuma nela toda imperfeição e a conduza à perfeição dos vinte e quatro quilates (a cada alma, naturalmente, segundo o seu grau). E quando a alma já está purificada deste modo, fica toda ela em Deus sem conservar nenhuma coisa em si que seja propriamente sua. Seu ser é Deus. Por isto, quando Deus está conduzindo a alma a si, purificada desse modo, fica a alma, então, impassível, porque não fica nada nela a ser consumido. Pois, se purificada como está, se mantivesse no fogo, este fogo não lhe causaria pena alguma; antes, bem lhe seria um fogo de amor divino, durável como de vida eterna, sem dano algum nem alguma contrariedade.
Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 4
O inferno e o purgatório nos revelam a admirável Sabedoria de Deus. Assim como o espírito limpo e purificado não encontra lugar a não ser em Deus para o seu repouso, por haver sido criado para esse fim, assim a alma em pecado não encontra outro lugar adequado para ela que não seja o inferno, que para este foi ordenado por Deus. Por isso, naquele mesmo instante em que o espírito se separa do corpo, a alma vai só ao lugar, que lhe foi ordenado, sem que ninguém a guie, exceto aquela alma que conserve a natureza do pecado porque saiu do corpo em estado mortal. Mas se a alma condenada não encontrasse no momento da morte aquela ordenação procedente da justiça de Deus, cairia em um inferno muito pior que aquele em que caiu, porque estaria fora daquela ordenação divina, a qual participa da divina misericórdia, que não lhe dá tanta pena quanto merece. Por isso, não encontrando a alma lugar mais conveniente para ela, nem em outro que se encontra com menos dano que aquele que por ordenação divina se lhe oferece, se lança dentro, como encontrando nele seu lugar próprio. Assim também, em relação ao purgatório, diremos que a alma, separada do corpo, ao não se encontrar com aquela pureza e nitidez com que foi criada e vendo em si o impedimento da culpa, que só pode ser quitada por meio do purgatório, rapidamente se lança nele de boa vontade. Porque, se a alma não encontrasse aquela ordenação prévia para tirá-la de seu embaraço, naquele mesmo momento se geraria para ela um inferno pior que o purgatório: ao ver que não podia alcançar, pelo impedimento da culpa, seu fim divino; o qual importa tanto, que, em sua comparação, o purgatório não vale nada, ainda que, como foi dito, seja tão semelhante ao inferno; mas em comparação com ele é quase nada. Necessidade do purgatório. Mas ainda quero dizer-lhes: é o que vejo, que pelo que se refere a Deus, o purgatório n]ao tem nem sequer portas: tal que o que quer nele entrar, entra; porque Deus é todo misericórdia e tem sempre para nós os braços abertos para receber-nos em sua glória. Mas também vejo que aquela essência divina é de tanta pureza e nitidez (e muito mais que se possa imaginar) que a uma mínima falta, se lançaria voluntariamente em mil infernos antes de poder encontrar-se na presença da Majestade Divina com aquela mancha. E por isso a alma, vivendo o purgatório ordenado para purificar-lhe daquelas manchas, se lança dentro; e lhe parece encontrar nele uma grande misericórdia, pois vai poder tirar de si aquele impedimento. Natureza terrível do purgatório. A importância do purgatório não pode expressar a língua nem conceber a mente; pois ao mesmo tempo que se vê nele tanta pena como no inferno, se vê também que a alma, quando somente sente em si um mínimo traço de imperfeição, o recebe como misericórdia, como foi dito: não fazendo estimação do seu dano em comparação com aquela mancha impeditiva de seu amor. E parece-me ver que a pena das almas do purgatório é maior, por ter visto nela mesma alguma coisa desagradável a Deus e por haver visto que esta coisa a fizeram voluntariamente contra tanta bondade; pois nenhuma outra pena pena sentem tanto como esta no purgatório. E é assim, porque estando em graça, veem a verdade e a importância do impedimento que não a deixam aproximar-se de Deus. Todas essas coisas que digo são incomparáveis com aquilo outro que está gravado em meu pensamento (quanto foi podido compreender nesta vida); e são coisas tão difíceis estas, que a seu lado, toda outra visão ou palavra, ou sentimento ou imaginação, toda outra justiça, toda outra verdade, me parecem mentira e coisa de nada. E ainda estou confusa por não saber encontrar palavras mais claras para dizê-los.
Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 3
Deus mostra sua bondade até com os próprios condenados. A pena dos condenados não é, contudo, infinita em quantidade, porque a doce bondade de Deus resplandece com o raio de sua misericórdia ainda até no inferno. O homem morto em pecado mortal merece uma pena infinita em um tempo infinito; mas a misericórdia de Deus fez só o tempo infinito e a pena finita em quantidade: posto que justamente poderia dar-lhes pena muito maior do que a que é dada. Oh, que perigo é o pecado quando se comete com malícia! Porque o homem não se arrepende dele senão com muita dificuldade, e não arrependendo-se, permanece na culpa; a qual persevera nela tanto quanto o homem permanece nessa vontade do pecado cometido e na de cometê-lo. Purificadas do pecado, as almas purgantes sofrem gozosamente as penas. Por outro lado, as almas do purgatório têm sua vontade totalmente conforme a vontade de Deus; e por isso Deus corresponde com a sua bondade; e assim elas estão contentes no que a vontade se refere; e purificadas do pecado original e do atual no que se refere à culpa. Ficam assim as almas purificadas como quanto as criou Deus; pois por haver saído estas almas desta vida, descontentes e confessados de todos os pecados cometidos e com a vontade de não voltar a cometê-los, Deus perdoa imediatamente a sua culpa e não lhes fica mais, então, do que aquela cobertura ou escória do pecado, da qual se vão purificando no fogo com a pena. E assim purificadas de toda a culpa e unidas com Deus pela vontade, veem a Deus claramente, segundo o grau que a Ele alcança seu conhecimento; vendo também quanto vale e importa este gozo seu de Deus, e que é o fim para a qual as almas foram criadas. Com quanta violência de amor desejam as almas como criar um blog do purgatório alcançar o gozo de Deus. Exemplo do pão e do faminto. As almas do purgatório encontram uma conformidade tão unitiva com a de Deus, a qual tanto as atrai para si (pelo instinto natural de Deus com a alma), que não se pode dar-se uma figura ou exemplo que sejam suficientes para esclarecer uma coisa como esta, tal como a mente a sente e compreende em efeito pelo sentimento interior. De todos os modos, darei exemplo que se oferece ao entendimento. Se não houvesse em todo o mundo mais que um só pão, o qual servisse para matar a fome de todas as criaturas, e que por natureza, quanto está são, instinto de comer, e não comendo-o não pudesse ficar doente nem morrer por ele, aquela fome sempre cresceria, porque o instinto de comer não lhe faltaria nunca. Mas se o homem soubesse, então, que só aquele pão podia saciá-lo, e que não tendo-o não poderia satisfazer a sua fome, sofreria uma pena intolerável. Pois quanto mais se aproximasse daquele pão, sem podê-lo ver, tanto mais cresceria nele o desejo natural de comê-lo, o qual, por seu instinto, somente quer aquele pão que consiste todo o seu desejo. Se o homem que digo estivesse certo de que já nunca mais tornaria a ver o pão, naquele mesmo momento encontraria o seu inferno: como as almas condenadas, as quais são privadas de toda esperança de jamais ver o pão de Deus, seu salvador verdadeiro. Mas as almas do purgatório têm a esperança de ver o pão e sanar-se dele. Por isso só padecerão fome e sofrerão esta pena todo o tempo que estiverem sem poder saciar-se daquele pão de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e salvador, amor nosso.
Extraído do livro O Purgatório – o que a Igreja ensina, do Prof. Felipe Aquino, 7ª edição. – Lorena: Editora Cléofas, 2010.
Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 2
Penas das almas do purgatório. A maior pena é a separação de Deus Por outro lado, sofrem aquelas almas uma pena tão extremada que não haveria língua capaz de explicá-la nem inteligência que pudesse compreender sequer uma centelha dela, se Deus por graça especial não se o mostrasse. Uma centelha disso é o que Deus por uma graça especial mostrou à minha alma; mas não posso expressá-lo com minha língua. E esta visão que me deu o Senhor do purgatório nunca mais se apagou de minha mente, e os direi dela o que puder, pois só entenderão aqueles aos quais o Senhor se digne abrir o entendimento. O fundamento de todas as penas é o pecado original e o atual. Deus criou a alma pura, simples e limpa de toda mancha do pecado; e com um certo instinto bem-aventurado fez Ele, do qual o pecado original com que a alma se encontra, a separa; e quando se apega ao pecado atual, então, se afasta mais de Deus a alma; e quanto mais se afasta, tanto mais se torna maliciosa, porque Deus lhe corresponde menos. E como todas as bondades que podem existir, o são por participação de Deus, o qual corresponde com as criaturas irracionais como Ele quer e tem ordenado, não abandonando-as nunca, e como à alma irracional corresponde Deus mais ou menos, conforme a encontre purificada do impedimento do pecado, por isso, quando encontra Deus uma alma que se aproxima de sua primeira criação pura e limpa, faz que aquele instinto bem-aventurado, se vá descobrindo e crescendo nela tanto, e com tal ímpetos e furor pelo fogo da caridade (a qual lhe dirige para os eu fim último) que pareca à alma uma coisa insuportável encontrar-se impedida para ele; e enquanto mais e melhor o vê assim a alma, tanto mais aumenta nela essa pena. Diferença entre os condenados e as almas purgantes. Como as almas que estão no purgatório já não têm culpa do pecado, não têm outro impedimento para chegar a Deus que somente aquela pena que o retarda fazendo que seu bem aventurado instinto não alcance esta perfeição. E vendo então, com certeza, quanto importa o mais mínimo impedimento, que é por necessidade de justiça que se atrasa nelas o cumprimento daquele instinto bem-aventurado, é porque nasce então para as almas aquele fogo extremado tão parecido ao do inferno; mas que é diferente por não haver mais nas almas purgantes nenhuma culpa, a qual é a que perverte a vontade dos condenados do inferno, aos quais Deus não lhes corresponde com a sua bondade, que é porque esses condenados permanecem naquela outra desesperada e pervertida vontade contrária à vontade de Deus. Assim vemos claramente que é a perversa vontade contrária à vontade de Deus que faz a culpa, e que perseverando a vontade má, persevera a culpa. Pois é por haver saído dessa vida com aquela vontade má, porque a culpa daqueles que estão no inferno não foi redimida e nem pode remir-se: porque já não podem trocar a vontade com a que saíram desta vida, já que naquela passagem a alma se estabiliza no bem ou no mal com a deliberação da vontade em que então se encontra; conforme está escrito: “Ubi te invenero“, isto é, na hora da morte, com a vontade de pecar ou com o descontentamento e arrependimento dos pecados “Ibi te judicabo.” E para este juízo não há possibilidade de remissão, porque depois da morte a liberdade do livre arbítrio torna-se imutável, pois a vontade torna-se fixa naquilo em que se encontrava no momento da morte. Aqueles que estão no inferno, por haverem-se encontrado no momento da morte com a vontade de pecar, levaram consigo a culpa infinitamente, e com ela a pena; que não é, entretanto, tanto como a que merecem, ainda que seja necessariamente sem fim. Mas aqueles outros do purgatório não têm mais que a pena, porque a culpa foi cancelada no momento da morte por eles mesmos, ao sentir-se descontentes por seus pecados e arrependimentos de haver ofendido com eles a Bondade Divina. E assim a pena é finita para eles e vai diminuindo com o tempo, como disse antes. Oh, que miséria das misérias a nossa, e tanto maior quanto a cegueira humana não a sequer vê!
Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova: Parte 1
Estando, todavia na carne esta santa alma se viu colocada no purgatório do fogo do amor de Deus, o qual a abrasava e purificava totalmente quando tinha que se purificar, de modo que, ao passar desta vida para a outra, pudesse apresentar-se imediatamente diante de Deus, seu doce amor. Assim, em meio desse fogo amoroso, compreendia sua alma como estavam suas almas benditas no purgatório – pregando a miséria e mancha do pecado, que nesta vida ainda não fosse purgado. E estando deste modo no purgatório do amoroso fogo divino, estava unida a seu divino amor, contente com tudo aquilo que Ele nela operava e compreendendo-a do mesmo modo como as almas que estão no purgatório. Por isso dizia: Perfeita conformidade das almas purgantes com a vontade de Deus As almas que estão no purgatório, segundo o alcance do meu entendimento, não podem ter nenhuma outra afeição que a de estar neste lugar; e isto acontece por determinação de Deus. Não podem estas almas voltarem-se para si mesmas, dizendo por exemplo: “Já cometi tais e quais pecados, pelo que mereço estar aqui”, Tampouco podem dizer a si mesmas: “Eu não queria tê-los cometido, porque assim eu estaria agora no paraíso”. Nem sequer podem dizer de outras almas: “Esta sairá daqui antes de mim, ou eu sairei antes dela.” Não podem ter memória própria nem de nenhuma outra coisa, nem no bem e nem no mal, que possa causar-lhes maior aflição do que as que têm. Elas têm, ao contrário, tanto contentamento de achar-se dentro da ordem divina e de que Deus opere nelas como mais lhe agrade e o que mais o agrade, que não podem pensar de si mesmas com maior pena. Vendo somente as operações da vontade divina nelas, não podem ver outra coisa que isto, porque é tanta a misericórdia divina para conduzir o homem a si, que não há pena ou bem, então para o homem que possa acontecer como coisa sua, pois se desse modo sucedesse ou pudesse desse modo ver que o sucedia, não estaria como está dentro da caridade. Não podem ver sequer, essas almas do purgatório, que estão sofrendo por seus pecados; e não podem ter em sua mente esta representação deles porque com isto lhe sucederia uma imperfeição ativa, presente, que não pode dar-se neste lugar, porque nele não pode atuar o pecado. Estas almas não veem o motivo de estar no purgatório, mais que uma só vez, que é ao sair ou deixar a vida, e já não podem ver mais, porque de outro modo se lhes seria como uma propriedade sua o vê-lo, não podendo já ter nenhuma. Porque estando essas almas na caridade, e não podendo desviar-se dela com nenhum defeito atual, não podem crer e nem desejar outra coisa senão o puro querer da pura caridade, pois estando no fogo do purgatório estão dentro da ordem divina (o qual é a caridade pura) e não podem desviar-se o mais mínimo em nenhuma outra coisa porquês estão tão igualmente privadas de poder pecar como de poder merecer. Alegria das almas do purgatório e sua crescente visão de Deus. Exemplo da escória. Não creio que haja alegria nem contentamento capaz de comparar-se ao de uma alma no purgatório, a não ser o dos Santos no Paraíso. E este contentamento cresce a cada dia pela influência de Deus nessas almas, a qual vai crescendo conforme vai consumindo aquilo que o impedia. A escória do pecado era o impedimento e o fogo a vai consumindo pouco a pouco de modo que a alma se vai descobrindo cada vez mais ao influxo divino. Sucede como quando uma coisa está coberta ou tapada, não podendo corresponder à iluminação do sol, o que não é defeito do Sol, que ilumina continuamente, senão daquela oposição que lhe oferece a cobertura naquela coisa. Se, então ardesse, consumindo-se aquela cobertura, se descobriria a coisa ao Sol, e tanto mais corresponderia à iluminação solar quando a cobertura mais se fosse consumindo. Do mesmo modo a escória ou o bolor (o próprio pecado) é a cobertura das almas que no purgatório se vai consumindo pelo fogo, e quanto mais se consome, tanto mais, sempre, corresponde ao verdadeiro sol que é Deus. Por isso vai crescendo o contentamento conforme vai destruindo-se a miséria e se descobre a alma ao raio divino. E assim cresce um e míngua a outra sem que acabe o tempo. Porque não diminui a pena por isso, senão o tempo de estar nessa pena. E no que se refere à vontade, não é possível dizer que aquelas penas sejam tais penas porque se contentam ao ordenado por Deus, com cuja vontade para pura caridade está unida à vontade daquelas almas.
Assinar:
Postagens (Atom)
7 fatos sobre o purgatório que você deveria saber
Entenda como funciona o purgatório e como ajudar as almas que estão lá O Catecismo da Igreja Católica assinala que o purgatório é uma “pur...
-
Uma alma mística chamada Maria Simma de Sonntag, nasceu na Áustria em 1915. Alma religiosa e mística foi favorecida de um carisma não m...
-
A Virgem Maria disse: "Quando este terço é orado com grande devoção e amor, em união com as santas almas do purgatório, 500 alm...
-
Ó Mãe compassiva da Consolação, olhai, vos rogo, para as benditas almas do purgatório. Elas são o caríssimo objeto de amor de vosso Di...
